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segunda-feira, 30 de março de 2009

O incrível mundo dos corais (Parte 1)

Ouvimos muito boatos sobre a morte de corais causada pelo aquecimento global. Um fenômeno que vem se espalhando por várias partes do mundo é o clareamento destes organismos. Fiz uma revisão sobre esse assunto para um trabalho, assim, vou postar algumas partes que acho muito interessante

Mas antes de tudo, algumas curiosidades sobre corais: Os recifes de corais são uma das maiores estruturas formadas por organismos vivos no mundo. Tanto sua diversidade, quanto a dos ocoralrganismos associados a eles são enormes, podendo ser comparáveis até com diversidade contida nas florestas tropicais. Constanza et al. (1997) estimou como valor econômico dos recifes de corais cerca de US$ 375 bilhões por ano, devido a serviços pesqueiros, turísticos e de proteção das zonas costeiras.

A ordem Sclarectinia engloba os chamados corais verdadeiros ou corais-pétreos. Por muito tempo, acreditou-se que a existência dos corais era devido à interação dele com algas do gênero Symbiodium, comumente conhecida como zooxantela. Esta alga disponibilizaria grande parte da energia necessária ao metabolismo do coral via o carbono orgânico produzido durante sua fotossíntese. Além disso, estas algas ainda disponibilizam oxigênio molecular usado na respiração do coral e dos outros organismos associados a ele (Rosenberg, et al. 2007). Atualmente, observa-se que as interações realizadas pelos corais não ocorrem somente com as algas, mas também com organismos procarióticos, principalmente bactérias.

Existem três compartimentos dos corais que podem ser habitados por estas bactérias: a camada de muco que envolve o coral, os seus tecidos e o seu esqueleto de carboncoral 2ato (Rosenberg, et al. 2007). Desta forma, o coral e os organismos associados (tanto procariotos, quanto eucariotos) e as interações entre eles formam uma estrutura holobionte. Esta interação entre corais e procariotos, como com as zooxantelas e outros microorganismos, trazem muitos benefícios para os corais. A diversidade destes procariotos pode ser dez vezes maior que a de zooxantelas nestes organismos.

Um exemplo da importância dessa associação foi mostrado por Siboni et al. (2008). Eles observaram que archaea oxidadoras de amônia (oxidam amônia a nitrato) habitavam o muco de corais e que participavam ativamente da reciclagem de nitrogênio no holobionte formado. Durante o dia, a camada mucosa é óxica, deste modo, estes microorganismos oxidam a amônia a nitrato, o qual pode ser assimilado pelo coral. Altas concentrações de amônia podem ser prejudiciais ao holobionte, pois podem afetar negativamente a assimilação de carboidratos pelas algas. Já durante a noite, a camada mucosa fica anóxica, assim, parte do nitrito é convertido em nitrogênio através da desnitrificação. Fato este que elimina do coral o excesso de nitrogênio transformando-o em nitrogênio gasoso.

Postarei mais informações sobres esses incríveis organismos. Espero que seja tão impressionante para vocês, quanto é para mim.

Referências:

Costanza R., D'Arge R., De Groot R., Farber S., Grasso M., Hannon B., Limburg K., Naeem S., O'Neill R.V., Paruelo J., Raskin R.G., Sutton P. & Van Den Belt M. (1997) The value of the world's ecosystem services and natural capital. Nature, 387, 253-260.

Rosenberg E., Koren O., Reshef L., Efrony R. & Zilber-Rosenberg I. (2007) The role of microorganisms in coral health, disease and evolution. Nature Reviews Microbiology, 5, 355-362.

Siboni N., Ben-Dov E., Sivan A. & Kushmaro A. (2008) Global distribution and diversity of coral-associated Archaea and their possible role in the coral holobiont nitrogen cycle. Environmental Microbiology, 10, 2979-2990.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Pós-graduação para quê?

Passei seis anos da minha vida dedicados a academia. Iniciação científica, mestrado e um doutorado engatilhado. Porém entre o doutorado e o mestrado, tive um ano para repensar minha vida. Diferente dos anos anteriores onde fui emendando uma coisa na outra,  a onda acadêmica me levava.

Para que eu faria um doutorado? Prazer, realização pessoal, orgulho, gostar de ciência… tudo isso eram atrativos. Porém, toda hora me vinha a cabeça o tempo entre o mestrado e doutorado que fiquei sem bolsa. Me encontrei no limbo, sem contato nenhum fora da universidade e sem possibilidade de ganhar dinheiro dentro dela. E foi nessa situação de extrema tristeza e desilusão que tomei algumas atitudes para minha nova vida.

Isto mesmo, como na alegoria da caverna de Platão. Um mundo de sombras. A sombra da publicação, a sombra da pressão do seu programa de pós-graduação, a sombra do seu orientador, entre outras. É… o mundo de ilusão da universidade é muito sedutor. Professores com egos inflados, viajando pelo mundo (e de graça! Como vocês sabem a universidade sempre libera verba para esses “congressos”). Eu admirava isso. Toda essa politicagem dentro dos institutos. Estava cercado de Pseudo-Deuses.

Sempre imaginei: “Poxa, me formei numa universidade ótima, tenho mestrado nessa mesma universidade, arrumo emprego quando quiser…” Nem preciso dizer que quebrei a cara. O mundo real é diferente, as coisas são bem mais difíceis! Os contatos são muito importantes. Por sorte, acabei conseguindo trabalho alguns meses depois. Hoje, leciono em dois colégios. Mas, trabalhar como biólogo ainda não consegui.

Nesse momento, me pergunto: E se eu tivesse um doutorado? Bem, na minha humilde opinião, seria a mesma situação, só que 4 anos a mais na falta de experiência no mercado. Qual o futuro de um Doutor no Brasil? Se não for para ser professor de Universidade ou em um raro centro de pesquisa, acho que só vale de pontos a mais um uma possível prova de título em um concurso público. Nosso país precisa absorver esses pós-graduados. Não podemos ter a profissão de pesquisadores? Nosso país gera tanta tecnologia assim para a quantidade de doutores e mestres que produzimos? Ou será que estamos formando uma massa de desempregados super qualificados? Qual o futuro de um doutor? Pós doutorado atrás de pós doutorado para ter uma bolsa?

Um doutor não pode nem financiar um carro no nome dele. Ele não tem comprovante de renda! É um absurdo! Temos prazo de validade, esse prazo é a data do término da bolsa! Ou quem sabe, te pasteurizam de novo e prolongam essa prazo por mais 2 anos.

É nesse contexto que vemos as notícias de fraude de dados se ampliando cada vez mais. É a pressão para sermos os melhores do mundo, temos que publicar em revistas internacionais. Fazer ciência para o Brasil e publicar para gringos. Tenho certeza que o número de pessoas que leram os trabalhos que participei como um dos autores é ínfimo diante das pessoas que já leram o que escrevi nesse blog.

Mas aonde quero chegar? Acredito que é vital que o Brasil crie instituições para absorver todos estes cientistas altamente qualificados. Pois, ou os perderemos para o exterior ou não vão trabalhar na área que foram altamente capacitados a trabalhar (investimento de milhares de reais no lixo). Ou se não, teremos que abrir 1 milhão de universidades para ter vaga para tanto professor!

Bem, essa é minha humilde opinião. E que venham as críticas…rs

terça-feira, 3 de março de 2009

Sobre adsense e blogs de ciência


Descobri hoje via twitter que o famoso blogueiro de ciência americano PZ Myers vai passar a ter uma coluna no jornal britânico de renome internacional "The Guardian". Na verdade ele não escreverá sozinho esta coluna. Além do biólogo-blogueiro, também foram recrutados um físico, um psicólogo, dentro outros. Cada um deles será responsável por uma coluna mensal, em um blog dentro do sítio do The Guardian.

Bem, com nomes de peso achei que valeria a pena a visita do novo blog. O conteúdo é bem interessante e vale a visita. Mas o que me motivou a escrever este post não foi a qualidade do blog. O motivo real foi um susto que eu levei quando entrei lá pela primeira vez (e que se mantem até agora no ar).





Reparem nos banners de propaganda na barra lateral e no topo do blog. Se você desconfia que tem algo de errado em uma revista que estampa na capa "Criação ou Evolução", você acertou em cheio. Não é só uma revista com um conteúdo criacionista tradicional (pseudociência de quinta categoria). É uma revista de ótima qualidade gráfica que é entregue de graça na sua casa com conteúdo criacionista tradicional. Então vamos refletir. Uma propaganda em um blog sobre ciência, no sítio de um dos jornais de mais prestígio do mundo. Você confiaria na fonte? Tenho certeza que 99,9% das pessoas confiariam. Ainda mais que você pode ganhar um livro de graça! Pessoas acreditam em qualquer bobagem na internet, imagina em algo dentro de um portal de pestígio. Pelo resumo do livro você já pode ter uma ideia do conteúdo. Tirei uma pérola dando uma olhada rápida no pdf do livro. Ele começa devagar, mas já mostra para o que veio.

"Evolucionistas exercitam a percepção seletiva quando olham para a evidência - como decidir se o copo está meio cheio ou meio vazio. Eles escolhem insistir mais em similaridades do que em diferenças. Fazendo isso eles te levam para longe da verdade da matéria: que similaridades são evidências de um designer comum atrás da estrutura e funcionamento das formas de vida."

Creation or Evolution? Página 32.


Uma pergunta simples seria..."Como o The Guardian deu espaço para uma propaganda deste tipo em seu blog de ciência?". O jornal não "deu espaço" para esta notícia específica. Ele apenas se rendeu ao senhor da internet mundial, aquele que não podemos citar o nome. O mais odiado e adorado. O Google. Este não é um problema apenas do blog de ciência citado acima. A maior parte dos blogs, principalmente do blogspot (serviço 'gratuito' do google), utilizam a ferramenta de propaganda chamada adsense. As vezes podemos ver vários banners de propaganda antes mesmo de um blog novo ter mais do que 1 post. As pessoas fazem isso porque ganham rios de dinheiro com o Google Adsense? Não, longe disso. Para ganhar dinheiro com adsense você precisa apenas de uma coisa: milhares de acesso. A maior parte dos blogs estão longe de terem centenas de acessos por dia. Desta forma fazemos propaganda praticamente de graça e, dependendo da sorte, apresentamos propagandas com um conteúdo bem questionável dentro dos nossos blogs. Esse problema se agrava quando estamos falando de blogs de ciência.

Como muito discutido no EWCliPo, blogs de ciência realmente nunca terão o mesmo número de acessos de blogueiros profissionais como o Cardoso e o Edney. Podemos procurar maneiras de aumentar nossos acessos, mas cair em certas armadilhas é muito fácil. Vamos falar de temas mais populares? Linguagem mais simplificada? Estes podem ser caminhos. Mas queremos isso para os nossos blogs ? Temos a ferramenta ideal, onde não estamos submetidos a ditadura da maioria dos canais de televisão. Publicação fácil de textos, alcance quase ilimitado. De certa forma, o lucro com blogs (através de propaganda) pode ser a morte prematura de uma ótima ideia. Não em blogs em geral, que visam apenas mais acesso e grana. Mas em blogs que visam o conteúdo, como os "blogs de ciência".

Podemos cair no mesmo erro da televisão aberta e da paga. Mesmo em canais que teoricamente não são tão pressionados pela audiência como o Discovery Channel, podemos ver o crescente e avassalador domínio da pseudociência e ambientalismo. OVINIs, espirítos e "termas verdes" são pautas recorrentes da programação. Um canal que tinha tudo para focar em ciência tomou um caminho bem diferente. Será que é pela qualidade da equipe? Talvez. Mas acho que nada é maior do que a pressão do público. Eles transmitem o que o público quer, o que dá audiência. Algo fora deste escopo acaba tendo baixa audiência, o que resulta em menos publicidade. Queremos passar por esta pressão da audiência?

Depois de refletir sobre tudo isso, resolvi fazer um adsensecídio. Como vocês devem ter percebido, o blog não apresenta mais propagandas de qualquer tipo. Pode não parecer nada demais, mas acho que é importante a reflexão em escala maior. Precisamos sim de leitores, pois sem eles a divulgação científica perde o sentido. Mas a qualquer custo?


Comecei essa discussão com o Charles e Água neste post do "Um longo argumento" e continuamos aqui em um post meu (ver comentários).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O que palestras de biologia e shows de rock tem em comum?


Ron Vale gig poster
"Como motores moleculares funcionam". Poster-convite para uma palestra. Crédito: gigpsforscis


Tudo, segundo o Departamento de biologia da universidade da Carolina do Norte. Eles convidaram uma dupla de designers para fazer posters de palestras realizadas pelo departamento. Até aí, nada demais. O diferencial estava em que não eram designers comuns. Eram especializados em fazer posters e camisas de bandas de rock. O resultado desta parceria você pode conferir aqui. Fica a ideia para congressos brasileiros. O público com certeza iria aumentar muito, somando os desavisados que gostariam de assistir ao show da banda "Ron Vale" como no poster que ilustra esse post.

Mais sobre os posters no sítio da revista The Scientist.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Google Maps + artigos científicos = AuthorMapper!





Em seu caminho para dominar o mundo, o Google lançou a ferramenta "Google Maps". Além de fazer a tradicional busca por endereços, a ferramenta ainda permite a vizualização de fotos da Lua, do céu e até do planeta Marte. Dentro deste contexto, a Springer, gigante da editoração científica mundial, teve uma ideia simples e interessante. Temos uma base de dados com milhares de artigos científicos e este número aumenta a cada dia. Porque não colocamos a localidade dos autores na ferramenta de mapas do google? E assim foi criado o AuthorMapper.


Visão dos últimos 100 artigos publicados na base Springer.


Podemos ver no mapa uma escala de cor à direita. Quanto mais vermelho, maior é o número de artigos publicados por autores de determinada região. Além disso é importante lembrar que uma marcação no mapa pode agrupar artigos de localidades próximas, indicando mais de um artigo. Aumente o zoom do mapa para refinar a escala. Além da visão dos últimos cem artigos publicados na base Springer, podemos ver também os artigos divididos por assunto (Química, biomedicida, filosofia, etc). Outra opção de filtro mais avançada é a busca por autor, instituição, periódico, país e data de publicação. Enfim, uma ferramenta interessante para aqueles dias em que não conseguimos passar da primeira linha daquele artigo engavetado.


Visão dos últimos 100 artigos publicados na base Springer. Detalhe: América do Sul


No horário em que visitei o sítio do AuthorMapper, dentre os 100 últimos artigos publicados na base Springer podemos reparar que 4 são do Brasil, sendo 2 do Rio de Janeiro e 2 do Paraná. Temos um artigo do Departamento de física teórica da UERJ, outro da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e dois da Universidade Estatual de Maringá. Lembre que temos só uma marcação no Paraná porque os dois artigos foram publicados por autores da mesma Universidade.

As possibilidades mais interessantes podem ser a exploração de padrões de publicação de artigos, entender novas tendências e histórico das publicações, dentre outras. Mas a que eu acho mais interessante seria achar uma pessoa lá no Casaquistão que publicou um artigo sobre o mesmo tema do meu doutorado ou mestrado. Alguns cliques no google e posso chegar ao email do autor. Coisas da internet.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Países desenvolvidos: Maiores emissores de gases estufa e ainda se dão bem!


Os EUA foram por muito tempo os maiores emissores de gases estufa para atmosfera. Junto com os países que passaram pela revolução industrial dos séculos XVIII e XIX, podem ser os responsáveis pela intensificação do efeito estufa no planeta. Isto é batido. O papel de cada país industrializado é bem sabido. O problema é global.

Entretanto, estudos realizados pela equipe do cientista atmosférico Darryn Waugh chegaram a conclusões impressionantes e, por incrível que pareça, injustas! Através de modelagens de dinâmica atmosférica e transferência de energia observaram que a parte mediana do hemisfério sul sofrerá uma diminuição das taxas de produção de ozônio, atrasando a recuperação da camada do referido gás sobre esta parte do planeta.

Esta foi a parte impressionante da conclusão, a injusta vem agora. Na parte mediana do hemisfério norte (EUA, Canadá e Europa), o padrão é inverso. Lá as taxas de produção de ozônio na estratosfera estão aumentando, havendo assim uma recuperação mais rápida desta camada sobre esta parte norte do planeta. Mas o que existe de injusto nisso? Vocês me perguntam. O injusto é que estes padrões de recuperação acelerada e retardada se devem ao aumento de CO2 e outros gases estufa na atmosfera. Com o aumento, padrões de circulação global de ar foram alterados. Assim, a estratosfera sobre o hemisfério norte está ficando mais gelada, diminuindo a degradação do ozônio. Já na parte sul do planeta, a estratosfera está mais quente, prejudicando a recuperação da camada de ozônio.


Volta de uma prainha no feriadão


Assim, além de gerarem um problema global, os países desenvolvidos podem aumentar as taxas de incidência de câncer e problemas oculares nos habitantes do hemisfério sul. Pois a camada de ozônio, como bem sabemos, funciona como um filtro solar para nosso planeta diminuindo a incidência de raios UV-B na superfície terrestre.

Eles causam o aumento da temperatura do planeta e nós tupiniquins saímos com menos roupas e frequentamos mais nossas praias. Assim ficaremos por mais tempo sujeitos ao câncer de pele, por exemplo, pois nossa camada de ozônio vai demorar mais tempo para atingir sua espessura normal (antes da invenção dos gases CFC's). Malditos yankes! Prejudicam até nosso lazer!

Fonte: ScienceNOW

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Como NÃO fazer divulgação científica em rede nacional

"O que chamamos de divulgação científica é o reflexo de um modo de produção de conhecimento restringido e, consequentemente da constituição de um efeito-leitor específico relacionado à institucionalização, profissionalização e legitimação da ciência moderna, e que opõe produtores e usuários/consumidores e, cria a figura do divulgador, que viria, imaginariamente, restabelecer a cisão, e minimizar a tensão instaurada ao longo da história no tecido social da modernidade. Essa cisão não é mantida sem tensão, sem a (re)produção tensa de um imaginário que a mantém. É nesse imaginário que trabalha a divulgação científica."


Henrique César da Silva. 2006.
O que é divulgação científica?
Revista Ciência e Ensino


Entendi que devemos tentar minimizar a tensão entre o público leigo e o meio científico. Que devemos restabelecer esta cisão formada ao longo da história. Mas acho que os repórteres da Globo estão pegando pesado. Depois de mostrar para os futuros professores de biologia como NÃO se deve ensinar seleção natural para seus alunos, a segunda parte do seu especial sobre os 200 anos de Darwin chegou ao ponto extremo (pelo menos até aqui, pois ainda faltam 2 partes).

Depois de 21 minutos de programa com uma qualidade razoavelmente interessante, entrevistas (superficiais) com filósofo Daniel Dannet (autor do livro "A Perigosa ideia de Darwin") e com o biólogo Richard Dawkins (que dispensa apresentações), temos um furo muito comum em documentários desta natureza. Depois de 21 minutos sem intervalo de pouco muito conteúdo, o que devemos fazer para manter o público interessado? Fazemos uma analogia sem contexto e que, com certeza, além de errada, não trás nem de longe algum acréscimo de informação. Uma pena. Vejam com os seus próprios olhos.





"Agradecer" a seleção natural? Um "cordão nervoso" ao longo de milhares de gerações deu uma nova função a boca? E isto explica porque beijar é tão bom ? Pelo amor de Darwin. Não tinha nada melhor para fechar um especial sobre os 200 anos de um dos maiores cientistas da nossa história ?

Se isso é divulgação científica, com certeza estou muito longe de fazer isso. E quero continuar assim. Depois dessa experiência marcante, gostaria de convocar todos os biólogos a dedicarem parte ou grande parte do seu tempo a divulgar ciência. Precisam de nós. E com urgência.


Referência:

Henrique César da Silva. 2006. O que é divulgação científica? Revista Ciência e Ensino 1(1): 53-59. Link para o artigo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O conselho mais brilhante que eu já vi (Isso que é se preocupar com o meio ambiente)

Um assunto polêmico tem tomado conta das discussões na Grã-Bretanha. Um dos principais conselheiros para assuntos ambientais do governo britânico foi MACHO de falar que o grande problema ambiental é a superpopulação, deste modo ele recomendou que os casais britânicos não tenham mais que 2 filhos. Mas por que 2 filhos? Quando temos dois filhos compensamos nossas mortes, então duas pessoas botam mais duas no mundo e um dia morrerão. Depois de um tempo esta população entra em um equilíbrio e a taxa de crescimento fica nula. Se cada casal tiver, por exemplo, 1 filho, se este comportamento for incorporado na sociedade, a taxa de crescimento populacional vai ficar negativa. Isto é, a população vai diminuir.

"Muitas organizações acreditam que não é parte de seu negócio. Minha missão com os Amigos da Terra e os Greenpeaces deste mundo é dizer: 'Vocês estão traindo os interesses de seus membros ao se recusar a lidar com questões de população e estão fazendo isso pelas razões erradas, porque acreditam que o assunto é muito controverso'."
Disse o conselheiro Jonathon "cabra macho" Porrit (Tapa na cara de qualquer greenpace da vida!)


Para mim, o grande problema ambiental é suprir a gigantesca população humana com os bens de consumo produzidos pelo capitalismo. Não quero dizer que os mais pobres devem ficar sem direito a nada, pelo contrário, quero que todos tenham um mínimo digno para sua vida. Então o que devemos ter que fazer imediatamente? Parar de fazer com que a população humana cresça! E como? Controle de natalidade. Mas tem que ser algo imposto pelo governo? Não! Isso seria uma ditadura. Temos que conscientizar todos na população. Por que uma garota de classe média tem direito de tomar seu anti-concepcional (que ela guarda dentro de sua caixinha rosa da Hello Kitty) e uma menina que mora na favela nem sabe que isso existe?

A escolha de ter 1, 2, 4 ou 20 filhos é da pessoa, mas duvido que se ela tivesse um esclarecimento do problema que isto pode causar, primeiramente, para seus próprios filhos e depois para o meio ambiente e sociedade, que esta pessoa teria mais que 2 filhos. Mas nossos governantes precisam de uma grande massa sem esclarecimento, ops, deixa pra lá!


Cadê o PlayStation deles? (Só seu filho merece?)


Precisamos de políticas públicas de esclarecimento do controle de natalidade. Precisamos mostrar as alternativas contraceptivas para todos, independentemente de sua classe social. Imagina se todos os chineses resolvessem comprar um I-Pod cada... Não ia ter matéria prima para isso no nosso planeta!

É claro que o conselheiro sofreu muitas críticas sobre seus comentários, sendo chamado de maluco por alguns. É difícil jogarem na sua cara que a Amazônia, por exemplo, está sendo destruída para que mais aço seja produzido, para quando seu terceiro filhinho fizer 18 anos, você possa dar um carro para ele. Mas o mais sinistro é que para um menino pobre de 12 anos, o aço mais perto das mãos dele é de uma arma, seja para a guerrilha urbana (ex. Rio de Janeiro) ou seja para guerras étnicas (Ex. Dafur).

Na minha humilde opinião: Primeiro devemos parar de crescer, depois vem a tentativa de uma sociedade mais igualitária. Não é você enchendo sua banheira de hidromassagem até o meio, ou usando sacola de paninho para ir ao mercado, ou trocando suas lâmpadas... entre outros mil exemplos ambientalistas piegas, que você vai ajudar mesmo o meio ambiente! Quer ajudar? Use camisinha ou pílula! E dissemine essa idéia (e não seus espermatozóides, para os meninos é claro!)

Fonte: O Globo - Ciência

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Enigma de Sexta

Não. Você não errou de blog. Também sou biólogo mas sou carioca. Este não é mais um enigma de sexta do Atila. Na verdade a minha ideia está muito mais para pergunta do que para enigma. Então lá vai.

Quem era o naturalista a bordo do H.M.S. Beagle?

A resposta você encontra aqui.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Uso de animais em pesquisa - campanha da FAPERJ

Depois de muita discussão infundada pela grande mídia brasileira sobre o tema, no último mês de outubro foi sancionada a lei que regulamenta o uso de animais em pesquisa científica no Brasil. Um dos grandes tópicos desta lei é a criação do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), responsável por credenciar instituições para criação e utilização de animais destinados a fins científicos e estabelecer normas para o uso e cuidado dos animais. Participarão do conselho a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), representantes dos ministérios da Educação, do Meio Ambiente, da Saúde e da Agricultura; o CNPq; o Conselho de Reitores das Universidades do Brasil (Crub); a Academia Brasileira de Ciências (ABC); a Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE); Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (Cobea); Federação Nacional da Indústria Farmacêutica; e dois representantes de sociedades protetoras dos animais legalmente estabelecidas no país.

Não consegui achar nada no sítio da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) sobre o assunto, mas achei muito interessante o conteúdo destes cartazes, fixados no corredor do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, no Centro de Ciências da Saúde, UFRJ. Se em algum momento os "defensores" de animais pensassem seriamente no conteúdo destes cartazes, tenho certeza que eles concentrariam esforços em regulamentar o uso de animais em pesquisa e não em proibir. Seguem abaixo as fotos que eu fiz dos dois cartazes.


Animal Use in Research - Brazilian CampaignAnimal Use in Research - Brazilian Campaign

PS.: Desculpem a baixa qualidade, fiz as fotos com o meu celular.

Para saber mais sobre a lei aprovada em outubro, clique aqui.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Duas espécies no mesmo nicho?

Cada espécie ocupa um lugar no espaço. Esse espaço pode ser o espaço físico (dois corpos não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo), porém existem outras dimensões deste espaço. O espaço ocupado no que se refere a exploração preferencial de um recurso, por exemplo. Ou o espaço ocupado pela a área de vida ótima. Esse espaço não é somente um aspecto físico, mas também um aspecto biológico, químico e até comportamental (ouso a falar, psicológico), isto é, cada recurso requerido pela espécie contará com uma dimensão desse hipervolume. Então dizemos que nicho é o espaço n dimensional (quanto mais você pesquisar, mais aspectos serão descobertos como sendo característicos de uma espécie, sendo assim, mais dimensões) onde uma espécie pode sobreviver, crescer, reproduzir e manter uma população viável. Com isso, podemos concluir que existe competição entre espécies quando alguma dessas dimensões são exploradas concomitantemente. Ambas necessitam do recurso, assim, a espécie que melhor explorar este recurso, sairá vencedora.

Este tipo de definição de nicho é chamada de nicho Hutchinsoniano, em homenagem a George Evelyn Hutchinson. Foi este importante zoólogo americano que propôs essa definição de nicho. Ele é considerado o pai da Limnologia moderna e faleceu em 30 de maio de 1991. Eu, Breno, por coincidência, fiz minha inciação científica e mestrado na área da Limnologia.


Semelhança entre espécies diferentes de borboletas



Na última edição da PLoS Biology, um grupo de pesquisadores mostrou que algumas espécies de borboletas que desenvolveram padrões similares de asas (o que alerta aos seus predadores que elas não possuem sabor muito bom, podendo até serem venenosas) não são próximas evolutivamente. Isto quer dizer que o ancestral comum entre elas é bastante afastado. Indicando que a similaridade não foi uma questão de ancestralidade e sim de adaptação evolutiva. Além disso, eles descobriram que borboletas que apresentam esses padrões de asas semelhantes possuem nichos bastante semelhantes também (por exemplo, voam nas mesmas alturas e preferem o mesmo tipo de vegetação). Os pesquisadores alegam que este comportamento maximiza os benefícios da aparência similar (se aproveitam do fato da possibilidade predadores aprenderem que elas não são palatáveis).

Deste modo, não somente a competição entre espécies pode atuar como fator primordial para a evolução, mas outros tipos de interações (como as mutualísticas) têm importante papel neste fenômeno.

Mas é importante lembrar aqui, que vale uma questão para pensar. Como eu disse, quer dizer, como Hutchinson disse, o nicho é n dimensional. Será que estas espécies parecidas dividem todas as dimensões (ou recursos) do nicho delas? Será que pesquisamos o suficiente para saber tudo o que influencia no sucesso destas espécies? Bem, acredito que não. Acredito que nuances desta sobreposição de nicho não são possíveis de se observar (por enquanto), daí as relações mutualistícas e não a competição. Pois por mais que possam compartilhar o mesmo tipo de floresta, a diversidade de fontes alimentares é enorme. Ou mesmo que a fonte alimentar seja a mesma, se explorarem em horários diferentes, podem nunca se esbarrar. E assim, não precisam competir. É..., questões a se debater....

Fonte: Eurekalert!

Referência:
Elias M, Gompert Z, Jiggins C, Willmott K (2008) Mutualistic interactions drive ecological niche convergence in a diverse butterfly community. PLoS Biol 6(12): e300.doi:10.1371/ journal.pbio.0060300

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Qual o valor de um projeto científico?


Hoje de tarde, ao ler a Nature News me deparei com uma notícia que discutia financiamento de pesquisas científicas. O foco dela era um experimento nos EUA que simulava o crescimento de florestas em uma atmosfera com 550ppm de CO2. Em um primeiro momento, achei muito interessante pois era um experimento enorme (realizado na própria floresta), porém no meio da leitura me deparo com as cifras do projeto. Eram duas localidades analisadas, sendo que em uma eram gastos $3 milhões de dólares (sendo $900.000 somente com o contínuo acréscimo de CO2 na atmosfera e com a engenharia do projeto) e no outro eram gastos $2 milhões de dólares, sendo que a escala de tempo era anual! (isto mesmo, $5 milhões de dólares por ano!)

Parei, pensei e analisei a situação brasileira. Por exemplo, vejo alguns institutos de pesquisa aqui da UFRJ com grandes projetos, alguns custando milhões de reais. Desenvolvimento de tecnologias envolvendo a exploração do petróleo são extremamente incentivadas, bem como o estudo de doenças genéticas extremamente raras na população. Todas estas pesquisas são de grande importância, não existe o que discutir sobre isto.

Indo um pouco mais além, vejo laboratórios super modernos, com equipamentos de milhões de dólares (microscópios eletrônicos, seqüênciadores, pirosequenciadores, espectrômetros de massa e outros), porém outros laboratórios o equipamento mais caro é o computador ou algum outro aparelho que não chega nem ao custo de operação mensal de alguns destes super equipamentos. Claro, algumas pesquisas não necessitam de aparelhos mais refinados, e nem por isso são menos importantes. Toda vertente científica tem seu valor intrínseco. O conhecimento não tem preço. Porém porque o orçamento de alguns laboratórios varia por volta de R$10.000 e outros por volta de milhões de reais?

A questão que quero chegar é que vejo algumas áreas da pesquisa científica sendo super valorizadas. Grandes somas de recursos são destinados a elas, mas será que isso é de extrema importância para o lavrador que mora no interior do nordeste? Deciframos o genoma humano, mas ainda sofremos com surtos de dengue, malária e outros. A doença de Chagas ainda mata milhares de pessoas. Indo mais além, queremos analisar como crescerão as florestas com uma atmosfera com 550ppm de CO2 na atmosfera, mas talvez antes disso não teremos mais a nossa Mata Atlântica.

Na minha humilde opinião observo que os recursos são distribuídos de maneira tendenciosa. Moda? Foco na mídia? Melhores publicações? Importância do chefe do laboratório dentro da universidade? Valorização de pesquisas parecidas com as feitas nos países desenvolvidos? Não posso dizer que é uma coisa só. São várias ao mesmo tempo.

Precisamos valorizar a pesquisa nacional, pesquisa para os nossos problemas (ambientais, sanitários, o que for). É claro que temos que participar de pesquisas de ponta, nosso país precisa disso. Porém não podemos canalizar a maioria dos financiamentos para estas frentes. Não podemos querer ficar imitando pesquisas de países desenvolvidos. Nossas crianças ainda morrem por desnutrição, milhares de pessoas não tem atendimento médico nem acesso a educação.

É... nós cientistas dentro de nossas salas com ar-condicionado devemos ter consciência da nossa responsabilidade. A sociedade investe grandes cifras em nós para melhorarmos a sua qualidade de vida. Será que estamos fazendo isso? Será?

PS: Será que eu deveria estar lendo a Nature News? Ou alguma revista nacional? rs

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Periódicos como Nature e Science não publicam os melhores trabalhos científicos

A afirmação do título deste post foi feita pelo epidemiologista grego John Ioannidis e seus colaboradores em um artigo publicado no periódico on-line PLoS Medicine. Segundo o autor, a atitude de rejeitar grande parte dos trabalhos em busca de uma maior qualidade pode acabar levando ao oposto, a publicação de trabalhos incorretos. Em um levantamento feito em 49 artigos de revistas de grande prestígio internacional que foram citados mais de 1000 vezes por outros autores, John Ioannidis argumenta que aproximadamente um terço deles foram refutados por outros estudos.

Abaixo um trecho da reportagem da revista The Economist que trata deste assunto:

Publish and be wrong
One group of researchers thinks headline-grabbing scientific reports are the most likely to turn out to be wrong

IN ECONOMIC theory the winner’s curse refers to the idea that someone who places the winning bid in an auction may have paid too much. Consider, for example, bids to develop an oil field. Most of the offers are likely to cluster around the true value of the resource, so the highest bidder probably paid too much.

The same thing may be happening in scientific publishing, according to a new analysis. With so many scientific papers chasing so few pages in the most prestigious journals, the winners could be the ones most likely to oversell themselves—to trumpet dramatic or important results that later turn out to be false. This would produce a distorted picture of scientific knowledge, with less dramatic (but more accurate) results either relegated to obscure journals or left unpublished (...)


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O artigo original de John Ioannidis pode ser encontrado aqui.