terça-feira, 7 de abril de 2009

Boas novas, ScienceBlogs à vista!

Caros amigos e leitores,

É com muita alegria que comunico que estamos mudando! Mudando para uma nova casa. Uma casa com vizinhos bastante ilustres. Fomos convidados para fazer parte da família ScienceBlogs Brasil.

science

Bem, o convite veio ainda na fase do Lablogatórios, porém essa mudança foi adiada para começar junto com o novo portal.

discutindo ecologia

http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/

Detalhes à parte, Luiz e eu estamos muito orgulhosos pelo convite. É o reconhecimento de trabalho duro, mas sempre prazeroso. Apesar de vários impessílios e problemas particulares, tentamos sempre divulgar ciência da melhor maneira possível. Além disso,  sempre procuramos escrever nossos posts com a postura ética e respeitosa.

Convido a todos a visitarem, ou melhor, frequentarem o Discutindo Ecologia (a partir de amanhã) e nossos outros valiosos companheiros do ScienceBlogs Brasil. Mudaremos um pouco o visual do blog. Esperamos agradar a todos vocês.

Por fim, quero agradecer a todos os amigos que sempre participaram das nossas discussões e que só engradeceram ainda mais este humilde blog. Obrigado do fundo do meu coração!

PS: Manteremos o nosso endereço de RSS. As novas atualizações poderão ser vistas no mesmo endereço de RSS de sempre.

brenoVALEU!

sábado, 4 de abril de 2009

Edward O. Wilson no Brasil

congresso-ecologia


Segundo a programação divulgada pelos organizadores do III Congresso Latino-Americano de Ecologia, o grande biólogo americano Edward Osborne Wilson, fundador da Sociobiologia, grande divulgador científico e uma autoridade mundial em insetos sociais, teve a sua presença confirmada no evento. EO Wilson irá realizar a “Conferência Magistral” do encontro, às 19:00 do dia 10 de Setembro deste ano em São Lourenço, MG. O tema da palestra (e não poderia deixar de ser) é “Biodiversidade”.

Outro palestrante que está confirmado no evento é o britânico AJ Underwood. Menos conhecido do grande público, Underwood é um grande nome da biologia experimental e tem vários livros publicados neste tema. Ele será o responsável pelo workshop intitulado “Experiments in Ecology”.

Lembro a todos que o Congresso Latino-Americano de Ecologia tem inscrições restritas a alunos de pós-graduação, professores e pesquisadores. Após este evento internacional, o IX Congresso de Ecologia do Brasil será realizado na mesma cidade, visando alunos de graduação e o público em geral.

Para saber mais informações sobre os dois eventos, visite o sítio da Sociedade de Ecologia do Brasil.


PS.: A comissão organizadora do evento informa que enviou um convite para que a palestra de abertura do evento (após a conferência magistral do EO Wilson) seja realizada pelo americano Al Gore. A palestra ainda não foi confirmada, mas este convite mostra o quanto ainda somos submissos a estrelas ambientalistas. Só falta ter um workshop do Greenpeace sobre transgênicos. Ainda espero o dia em que separemos “Ecologia” de “ambientalismo”.


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mais uma furada do Greenpace.

Essa é uma organização que decepcionou muito. No início de minha vida acadêmica, respeitava muito o Greenpace. Achava que somente com ações um pouco menos ortodoxas conseguiríamos fazer com que as pessoas pensassem sobre meio ambiente.

Bem, nem preciso falar que logo me frustrei com a efetividade de tais ações. Hoje, nós cariocas, tivemos mais uma confirmação desse assunto. Vinte integrantes foram até o vão central da ponte Rio-Niterói e, com ajuda de técnicas de rapel, estenderam uma faixa gigantesca. Porém, o horário dessa manifestação foi logo cedo, horário de pico na ponte. Nem preciso dizer o caos que se tornou a cidade de Niterói. Quilômetros de engarrafamentos, trabalhadores chegando atrasados e muitos outras transtornos foram gerados. Para quê? Para estender uma faixa (escrita em INGLÊS!!) alertando os participantes do G20 para os problemas ambientais e problemas com a população.

Como são imbecis!!!! Gerando engarrafamentos monstruosos????? Maior emissão de gases estufa pelos carros??? Querem que as autoridades se preocupem com o meio ambiente, mas eles próprios intensificam outros problemas? Querem ajudar a população, mas geram engarrafamentos, podendo alguns perderem os empregos ou compromissos sérios?????

São uns demagogos, não prestam para nada! O WWF é menos pior, pois ainda financia pesquisas. Eles abrem editais para isso. É vergonhoso ver uma atitude dessas. Mas não era de se esperar o contrário do tipo de pessoas que realmente fazem parte de movimento, e não alguns que dão uma contribuição (para algo que eles nem sabem como funciona direito) sentados na poltrona de suas casas.

O mais engraçado foi ouvir no rádio o Ricardo Boechat (Rede Bandeirantes) dizendo que a única coisa que ele tinha para falar em Inglês para os integrantes de Greenpace era “F**k you”. É fácil fazer esses montes de merda tendo dinheiro no bolso (como é a maioria desses radicais), difícil é ficar sentado no ônibus esperando horas para chegar no trabalho por causa de ações que não levam a nada.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O incrível mundo dos corais (Parte 1)

Ouvimos muito boatos sobre a morte de corais causada pelo aquecimento global. Um fenômeno que vem se espalhando por várias partes do mundo é o clareamento destes organismos. Fiz uma revisão sobre esse assunto para um trabalho, assim, vou postar algumas partes que acho muito interessante

Mas antes de tudo, algumas curiosidades sobre corais: Os recifes de corais são uma das maiores estruturas formadas por organismos vivos no mundo. Tanto sua diversidade, quanto a dos ocoralrganismos associados a eles são enormes, podendo ser comparáveis até com diversidade contida nas florestas tropicais. Constanza et al. (1997) estimou como valor econômico dos recifes de corais cerca de US$ 375 bilhões por ano, devido a serviços pesqueiros, turísticos e de proteção das zonas costeiras.

A ordem Sclarectinia engloba os chamados corais verdadeiros ou corais-pétreos. Por muito tempo, acreditou-se que a existência dos corais era devido à interação dele com algas do gênero Symbiodium, comumente conhecida como zooxantela. Esta alga disponibilizaria grande parte da energia necessária ao metabolismo do coral via o carbono orgânico produzido durante sua fotossíntese. Além disso, estas algas ainda disponibilizam oxigênio molecular usado na respiração do coral e dos outros organismos associados a ele (Rosenberg, et al. 2007). Atualmente, observa-se que as interações realizadas pelos corais não ocorrem somente com as algas, mas também com organismos procarióticos, principalmente bactérias.

Existem três compartimentos dos corais que podem ser habitados por estas bactérias: a camada de muco que envolve o coral, os seus tecidos e o seu esqueleto de carboncoral 2ato (Rosenberg, et al. 2007). Desta forma, o coral e os organismos associados (tanto procariotos, quanto eucariotos) e as interações entre eles formam uma estrutura holobionte. Esta interação entre corais e procariotos, como com as zooxantelas e outros microorganismos, trazem muitos benefícios para os corais. A diversidade destes procariotos pode ser dez vezes maior que a de zooxantelas nestes organismos.

Um exemplo da importância dessa associação foi mostrado por Siboni et al. (2008). Eles observaram que archaea oxidadoras de amônia (oxidam amônia a nitrato) habitavam o muco de corais e que participavam ativamente da reciclagem de nitrogênio no holobionte formado. Durante o dia, a camada mucosa é óxica, deste modo, estes microorganismos oxidam a amônia a nitrato, o qual pode ser assimilado pelo coral. Altas concentrações de amônia podem ser prejudiciais ao holobionte, pois podem afetar negativamente a assimilação de carboidratos pelas algas. Já durante a noite, a camada mucosa fica anóxica, assim, parte do nitrito é convertido em nitrogênio através da desnitrificação. Fato este que elimina do coral o excesso de nitrogênio transformando-o em nitrogênio gasoso.

Postarei mais informações sobres esses incríveis organismos. Espero que seja tão impressionante para vocês, quanto é para mim.

Referências:

Costanza R., D'Arge R., De Groot R., Farber S., Grasso M., Hannon B., Limburg K., Naeem S., O'Neill R.V., Paruelo J., Raskin R.G., Sutton P. & Van Den Belt M. (1997) The value of the world's ecosystem services and natural capital. Nature, 387, 253-260.

Rosenberg E., Koren O., Reshef L., Efrony R. & Zilber-Rosenberg I. (2007) The role of microorganisms in coral health, disease and evolution. Nature Reviews Microbiology, 5, 355-362.

Siboni N., Ben-Dov E., Sivan A. & Kushmaro A. (2008) Global distribution and diversity of coral-associated Archaea and their possible role in the coral holobiont nitrogen cycle. Environmental Microbiology, 10, 2979-2990.

sábado, 28 de março de 2009

Não apague suas luzes hoje às 20:30

Para início de conversa, alguém já passou no site do WWF para entender o motivo deles estarem fazendo esta campanha? Se ainda não tiveram este prazer, eu vou discutir um pouco isso.


Essa é a primeira eleição que acontece simultaneamente no mundo inteiro. No páreo, estão o nosso planeta e o aquecimento global. Para quem você vai dar seu voto?

No dia 28 de março, você pode dar seu voto pela terra, contra o aquecimento global, com um gesto simples: apague a luz da sua sala.
Ao desligar o interruptor, você já está dando o seu voto. Os resultados dessa grande eleição mundial serão apresentados na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, que acontece em Copenhagen, em dezembro desse ano. Nós queremos reunir 1 bilhão de votos pelo planeta, para mostrar aos nossos líderes que precisamos agir contra o aquecimento global. Por isso, cada voto é importante, inclusive o seu!

Fonte: WWF


Vamos tentar entender esse mix de linguagem infantil com desinformação. Páreo entre nosso planeta e o aquecimento global? Não estava sabendo desta briga. E ainda mais que eu poderia votar no aquecimento global! Realmente a ideia foi muito boa. Cada luz apagada da sala (?!?) é um voto, assim teremos dados para mostrar para os políticos que somos a favor do planeta e contra o aquecimento global! Oba !!! Isso é uma piada?

Agora uma coisa que eu gostei muito. Apagamos somente a luz da sala? Pelo que eu tinha entendido era mais uma campanha educativa para diminuição do consumo de energia elétrica. E parece que o pessoal que fez a campanha também não sabe muito bem o motivo dela. Naquele videozinho piegas da campanha deste ano, podemos ler frases como “Esforço global”, “Movimento em prol do planeta”… então é um esforço para refletir sobre a diminuição do consumo de energia do mundo ou para dar um voto em uma pesquisa?

Se for um voto em uma pesquisa, acho que seria muito melhor um abaixo assinado. Simples, direto e que todos poderiam participar (continuaria sendo piegas, mas pelo menos seria mais eficiente). Ah, mas apagar as luzes é uma atitude legal! Nosso esforço contra o monstro do aquecimento global!!! Mas e as pessoas que não tem acesso a energia elétrica em casa? No Brasil, mais de 12 milhões de pessoas não tem acesso a energia elétrica em suas casas, sendo 10 milhões no meio rural. O índice de exclusão elétrica no Acre e no Amazonas ultrapassa os 70% da população do campo. No nordeste, 58% dos domicílios rurais não são atendidos pela rede elétrica. Vamos deixar estas pessoas de fora da “pesquisa”? Os que serão os principais atingidos pela mudança do clima? Os dados citados são do programa “Luz para todos”, do governo federal. Você pode baixar o pdf com dados sobre o plano aqui. Gostaria de convocar um movimento “Apaguem as velas hoje às 20:30”, para incluir na pesquisa as pessoas que não tem acesso a luz no Brasil.


matriz-energetica-brasil

Fonte: Plano nacional sobre a mudança no clima, 2008.


Vamos esquecer por um minuto (e não 1 hora como na campanha) os excluídos de eletricidade no Brasil. Vamos pensar que todos temos energia elétrica em nossas casas. Então a campanha do WWF seria muito legal, pois incentiva a redução do consumo de energia elétrica no Brasil, combatendo o aquecimento global! Não, muito longe disso. Como você pode ver no gráfico acima, a energia elétrica oriunda de hidrelétricas é responsável por 80% da nossa matriz energética. Essa fonte de energia é renovável, tendo uma emissão de gases estufa muito menor do que termelétricas. Somente as usinas do norte do Brasil evitariam a emissão de 183 milhões de toneladas de CO2 equivalente até 2016, segundo o plano nacional sobre a mudança no clima.


emissão-co2

Emissão de CO2 por setor, 1994. Fonte: Plano nacional sobre a mudança no clima, 2008. Para baixar o pdf, clique aqui.


No mundo inteiro a produção de energia através de combustíveis fósseis é a principal responsável pela emissão de gases estufa, o que é completamente diferente no Brasil. No gráfico acima podemos ver que o problema aqui é o desmatamento. Então porque vamos apagar as luzes se a principal via de emissão de nosso país é o desmatamento?

Pensando em tudo o que eu escrevi neste post, gostaria que cada um pensasse muito bem não só no que vai fazer hoje às 20:30 mas também no que faz na sua vida. Se a sua consciência vai ficar melhor se você apagar as luzes hoje a noite, vá em frente. Mas tenha a certeza que isto não mudará em nada o que está acontecendo no mundo ao seu redor. Leia, seja mais crítico, eleja políticos honestos. Estimule isso em seus amigos e familiares. Isto sim vai ser importante para nosso planeta.

Vejo que não estou sozinho nesta briga contra a “hora do planeta”. Leiam a opinião do Carlos Hotta sobre o assunto. Aqui a opinião do Liberal, Libertário, Libertino e não poderia faltar a opinião do Cardoso. Mais uma do Cardoso, comentando um epic FAIL. E agora a opinião de Carlos Pacheco, do ótimo Geófagos.


quarta-feira, 25 de março de 2009

“Eco-hipocrisia”, “Eco-demagogia”

Depois da tentativa frustrada de entrevista do Felipe e da recente reação da blogosfera científica sobre a medíocre qualidade do jornalismo cientifico nacional, venho me aventurar neste meio. Sexta-feira passada estive no Centro de Tecnologia da UFRJ, mais especificamente no auditório 122 da COPPE (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e pesquisa de engenharia) para assistir a mais uma reunião do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Esta reunião contou com a ilustre presença de nosso ministro do meio ambiente Carlos Minc e do coordenador geral do Fórum e diretor da COPPE, Prof. Luiz Pinguelli Rosa.

 

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Minc com seu colete característico e a sua esquerda o Prof. Pinguelli

 

Além da revisão do nosso inventário de emissão de gases estufa e da imposição da compensação das emissões de CO2 para a liberação da licença ambiental de novas termelétricas (destacado pela cobertura do jornal da ciência e da agência UFRJ), vários outros pontos interessantes foram destacados por nosso ministro. E é o papel deste humilde cientista jornalístico (?) publicar sua visão do evento, tentando fugir um pouco da mesmice da cobertura jornalística habitual.

Um rápido e interessante histórico do Plano Nacional sobre Mudança no clima foi feito. Minc ressaltou todos os problemas iniciais deste documento e como ele foi alterado e melhorado depois da fase de consulta pública. Mesmo tento uma matriz energética relativamente limpa (devido a grande participação da energia hídrica), o futuro é cada vez mais sujo para o nosso país. Fazer um planejamento onde há uma previsão de construção de 81 termelétricas até 2017 mostra que estamos bem longe de uma matriz limpa no futuro.

E qual foi a principal conclusão do nosso ministro? Estamos longe de ser “burros” ou “malvados” por autorizar a construção de um número absurdo de termelétricas ao invés de investir em energias renováveis. Minc reforça que houve um “nó” no licenciamento de novas usinas hidrelétricas e que o problema da falta de energia teria que ser resolvido de algum jeito. Se não é pelo jeito limpo, o que nos resta? A solução encontrada por ele é focar na agilização do processo de licenciamento ambiental no brasil. A ideia é simples: analisar os processos de licenciamento em bloco, fazendo com que os projetos “inviáveis” (palavras do ministro) não sejam colocados no mesmo patamar de projetos possíveis, diminuindo o tempo de análise e aumentando o número de licenciamentos concedidos. Resumindo, se não podemos acabar com a burocracia, filtramos os processos de licenciamento antes deles serem analisados em profundidade. Assim os projetos viáveis não sofrem atrasos absurdos como o que acontece hoje em dia. As usinas hidrelétricas modernas estão longe de serem uma Balbina. Elas possuem uma alta eficiência energética (menor relação área alagada/energia gerada) e podem ser instaladas como “plataforma”, sem a necessidade de grande infra-estrutura na área de entorno, o que diminui muito o impacto ambiental do empreendimento.

 

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Qual é então o maior problema  do licenciamento das hidrelétricas no Brasil segundo nosso ministro Carlos Minc? “(…) O Governo quer todas as usinas e os ambientalistas nenhuma”. Foi aí que os termos que intitulam este post entraram em pauta. Minc chamou os ambientalistas de “eco-hipócritas” e “eco-demagogos” por fazerem pressão para barrar todo e qualquer projeto de novas usinas hidrelétricas, o que gera uma grande defasagem na geração de energia. Consequência deste ato “verde”? Licenciamento de termelétricas. Assim os ambientalistas dormem tranquilamente achando que estão salvando o Brasil da malvada e “falsa” energia limpa das hidrelétricas e acabam sujando muito mais nossa matriz energética com o consequente licenciamento de termelétricas. Devemos investir em energia eólica, solar e biomassa? Claro que sim. Mas não licenciar usinas hidrelétricas modernas com todo esse potencial hídrico que ainda temos é um tiro no pé. Nenhum país sério investe só em um tipo fonte de energia, ainda mais em fontes caras e inconstantes como as chamadas “verdes”.

 

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Além das felizes expressões, Minc também anunciou novidades muito interessantes como a criação de um “IPCC brasileiro”, onde mais de 300 cientistas de todo o brasil formariam um painel nacional para a mudança do clima. Além disso, depois de ser questionado quanto a necessidade de um inventário não só da floresta amazônica, mas de todos os biomas brasileiros, o ministro do meio ambiente afirmou que em breve anunciará convênios com universidades públicas para o monitoramento do cerrado, caatinga e mata atlântica. Aguardamos novidades em relação a este projeto.

 

Palmas para Minc. Colocando os ambientalistas no seu devido lugar. O da hipocrisia e demagogia.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ciência é besteira?

Em um artigo bastante equivocado, a editora da revista Época Ruth de Aquino avalia o papel da ciência na nossa sociedade. Bem, a palavra não seria bem “avaliar”, está mais para uma diarréia mental de uma pessoa que não entende nada de ciência. Carlos Hotta do Brontossauros em meu jardim comentou essa artigo brilhantemente.

Porém levanto mais uma questão: Aonde estão nossos cientistas para se defenderem? Ela simplesmente reduziu a ciência a um apanhado de dados óbvios que somente confirmam o senso comum. Será que nossos cientistas se acham tão superiores em suas redomas de conhecimento que não precisam se defender? Aonde está um comunicado oficial de uma universidade federal qualquer?

Isso foi um insulto a ciência brasileira e mundial. Poderíamos resumir o jornalismo brasileiro como sendo manipulativo, pois como bem sabemos, a globo distorceu o debate entre os candidatos Lula e Collor, ou também resumiu, em um primeiro momento, a marcha dos caras pintadas como sendo uma manifestação por carteiras de estudantes para pagar meia entrada. Ou o caso mais clássico, ter aparecido na cobertura do jornal nacional o comício das diretas já como sendo uma showmício em comemoração do dia dos trabalhadores. É fácil selecionar uns poucos fatos e generalizarmos para toda uma categoria.

Essa atitude afasta ainda mais nossa sociedade da ciência. Somado a um afastamento já existente pela própria postura da academia, nosso povo tem toda razão de questionar os poucos milhões de reais que ainda são investidos em ciência e tecnologia.

Cientistas do Brasil, mostrem suas caras! Defendam-se!

domingo, 22 de março de 2009

Vai um bico aê?

Confirmando o post anterior (Pós graduação para quê?), o problema é mundial!



Confira mais tirinhas sobre o mundo da pós graduação no excelente site Phdcomics.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Porque as folhas mudam de cor e caem no outono?

 arvore-outonoCrédito: Exothermic 

 

No último mês o periódico americano Science publicou um artigo que relata mais uma tentativa de melhorar o nosso entendimento sobre um dos mecanismos mais comuns e visíveis da natureza. A senescência sazonal das folhas das plantas, principalmente de espécies características de clima temperado. O trabalho de JH Kim e colaboradores coreanos analisou a cadeia de eventos que regulam este processo em plantas normais e em mutantes, onde as folhas demoravam mais tempo para morrer. Segundo os autores, a chave deste complexo processo está na regulação do gene ORE1, responsável pela produção de uma proteína que induz a perda e clorofila e a consequente morte da folha. Se não houvesse um mecanismo de supressão do gene ORE1 em folhas jovens, certamente o tempo de vida das folhas seria drasticamente reduzido. Além da importância de responder a uma questão intrigante da natureza, o estudo da senescência sazonal das folhas pode ser muito importante para o ser humano, principalmente na agricultura. 

Acompanhando o processo de morte celular, a mudança de cor destas folhas é algo realmente marcante. Mas será que a alteração da cor das folhas resulta somente do processo de senescência celular? Na verdade não totalmente. As chamadas “cores de outono” (pelo menos em clima temperado) são resultado da mistura de três pigmentos: clorofila (verde), carotenóides (amarelo-laranja) e antocianina (vermelho-violeta). Tanto a clorofila quanto os carotenóides são produzidos ao longo ao ano todo, mas devido a grande produção do principal pigmento fotossintético, as cores amarelo-alaranjadas são mascaradas. Já os pigmentos de cores avermelhadas (antocianina) são produzidos especificamente no outono, logo antes antes da queda das folhas. Então a coloração vermelha das folhas no outono não é um efeito colateral da senescência sazonal, o que torna a produção ativa deste pigmento no outono ecologicamente interessante.

 

cores-outono Predominância das coloração vermelha (a), amarela (b) e marrom (c) em folhas. O marrom normalmente indica morte celular. Fonte: Archetti et al. 2009

 

A explicação mais antiga e testada para a função do pigmento vermelho é a proteção contra fatores abióticos, principalmente a radiação solar. As antocianinas aliviariam esse estresse foto-oxidativo, funcionando como um verdadeiro “protetor solar”. Mas para que aliviar esse estresse em folhas que vão morrer de uma maneira ou outra? Aí entramos no papel de um mecanismo muito importante, a reabsorção de nutrientes. Folhas mais saudáveis podem aumentar a eficiência da reabsorção de nutrientes (principalmente nitrogênio e fósforo) para o resto da planta. Esse mecanismo é bem difundido em vegetais, tendo grande importância competitiva em ambientes pobres em nutrientes. Discuti um pouco a importância  do mecanismo de reabsorção de nutrientes em vegetais no artigo intitulado “O papel das macrófitas aquáticas emersas no ciclo do fósforo em lagos rasos”, publicado pelo periódico aberto Oecologia Brasilisensis.

Além das explicações abióticas, outro grupo de explicações para a produção ativa de antocianina no outono por folhas senescentes está relacionada a interação inseto-planta. Coevolução, dispersão de sementes, defesa direta, camuflagem, anticamuflagem, mutualismo tritrófico (entre três níveis tróficos) são hipóteses relacionadas a este tipo de interação. Dentre todas essas possibilidades bióticas, a mais estudada, para felicidade do Atila, é a coevolução. Segundo esta hipótese, a coloração vermelha seria um sinal de advertência para os insetos herbívoros. Ela indicaria um alto nível de defesas químicas, baixa qualidade nutricional ou queda iminente da folha, o que não seria nada interessante para os insetos. Sendo a migração no outono um passo crucial no ciclo de vida de vários insetos, a pressão seletiva para buscar uma folha de qualidade para colocar os seus ovos é bem forte. Já a planta se beneficiaria tanto pela menor taxa de herbivoria em suas folhas quanto pela menor taxa de infecção por vírus, bactérias e fungos trazidos pelos insetos. Desta forma, a escolha das folhas pelos insetos e as cores do outono poderiam coevoluir como em uma corrida armamentista. As plantas com folhas de coloração em tons avermelhados seriam selecionadas por ter  menor taxa de herbivoria e os insetos que buscavam folhas em tons diferentes do vermelho foram selecionados por acharem substratos de maior qualidade. Simples assim. Simples?

Bem, o buraco é um pouco mais embaixo. Um trabalho que analisou 262 espécies de árvore mostrou que as espécies que apresentam “coloração de outono” são as que apresentam uma história evolutiva ligada a insetos que migram no outono (no caso, pulgões). Pulgões realmente parecem ter uma preferência por folhas verdes em detrimento de folhas avermelhadas, mas como eles distinguem entre o verde e o vermelho? Muitos insetos não apresentam fotoreceptores para a cor vermelha e por isso não enxergariam o que nós vemos como vermelho. Uma possível saída para essa questão seria que os pulgões não seriam atraídos ou repelidos por cores, mas sim por fatores químicos voláteis ligados a qualidade da folha. Desta forma eles teriam um indicativo indireto da coloração da folha, o que é consistente em relação a hipótese da coevolução. Mas não corrobora totalmente a hipótese, já que não mostra que a coloração vermelha é o sinal que direcionador da escolha de folhas pelos pulgões.

 

Aphis nerii

Grupo de pulgões (Aphis nerii) tirando a barriga da miséria. Crédito: bobtravis

 

As hipóteses da fotoproteção e da coevolução foram as que receberam mais atenção nos últimos anos, o que não quer dizer que as outras hipóteses são menos expressivas. As hipótese que tentam explicar o valor adaptativo das “cores de outono” são tantas que foi publicado no relevante periódico Oikos esse ano um levantamento do estado da arte do tema. No total, Marco Archetti levantou em seu artigo 16 diferentes hipóteses e finalizou mostrando que ainda temos um grande caminho pela frente “Nós não temos nenhuma evidência para qualquer hipótese”.

Da próxima vez que você olhar uma folha mudando de cor no outono eu tenho certeza que os pontos discutidos neste post ainda estarão pulsando. O levantamento de questões sobre situações que parecem simples em um primeiro momento, mas apresentam grande complexidade é um dos fatores que faz a ciência ser tão interessante.

 

Referências:

Jin Hee Kim, Hye Ryun Woo, Jeongsik Kim, Pyung Ok Lim, In Chul Lee, Seung Hee Choi, Daehee Hwang and Hong Gil Nam (2009). Trifurcate Feed-Forward Regulation o Age-Dependent Cell Death Involving miR164 in Arabidopsis. Science 323, 1053-1057. http://dx.doi.org/10.1126/science.1166386

Marco Archetti, Thomas F. Doring, Snorre B. Hagen, Nicole M. Hughes, Simon R. Leather, David W. Lee, Simcha Lev-Yadun, Yiannis Manetas Helen J. Ougham, Paul G. Schaberg and Howard Thomas (2009). Unravelling the evolution of autumn colours: an interdisciplinary approach. Trends in Ecology and Evolution 24(3), 166-173. http://dx.doi.org/10.1016/j.tree.2008.10.006

Luiz Bento, Humberto Marotta & Alex Enrich-Prast (2007). O papel das macrófitas aquáticas emersas no ciclo do fósforo em lagos rasos. Oecologia Brasiliensis 11(4), 582-589. Link para o artigo

Marco Archetti (2009). Classification of hypotheses on the evolution of autumn colours. Oikos 118, 328-333. http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0706.2008.17164.x

 

Pós-graduação para quê?

Passei seis anos da minha vida dedicados a academia. Iniciação científica, mestrado e um doutorado engatilhado. Porém entre o doutorado e o mestrado, tive um ano para repensar minha vida. Diferente dos anos anteriores onde fui emendando uma coisa na outra,  a onda acadêmica me levava.

Para que eu faria um doutorado? Prazer, realização pessoal, orgulho, gostar de ciência… tudo isso eram atrativos. Porém, toda hora me vinha a cabeça o tempo entre o mestrado e doutorado que fiquei sem bolsa. Me encontrei no limbo, sem contato nenhum fora da universidade e sem possibilidade de ganhar dinheiro dentro dela. E foi nessa situação de extrema tristeza e desilusão que tomei algumas atitudes para minha nova vida.

Isto mesmo, como na alegoria da caverna de Platão. Um mundo de sombras. A sombra da publicação, a sombra da pressão do seu programa de pós-graduação, a sombra do seu orientador, entre outras. É… o mundo de ilusão da universidade é muito sedutor. Professores com egos inflados, viajando pelo mundo (e de graça! Como vocês sabem a universidade sempre libera verba para esses “congressos”). Eu admirava isso. Toda essa politicagem dentro dos institutos. Estava cercado de Pseudo-Deuses.

Sempre imaginei: “Poxa, me formei numa universidade ótima, tenho mestrado nessa mesma universidade, arrumo emprego quando quiser…” Nem preciso dizer que quebrei a cara. O mundo real é diferente, as coisas são bem mais difíceis! Os contatos são muito importantes. Por sorte, acabei conseguindo trabalho alguns meses depois. Hoje, leciono em dois colégios. Mas, trabalhar como biólogo ainda não consegui.

Nesse momento, me pergunto: E se eu tivesse um doutorado? Bem, na minha humilde opinião, seria a mesma situação, só que 4 anos a mais na falta de experiência no mercado. Qual o futuro de um Doutor no Brasil? Se não for para ser professor de Universidade ou em um raro centro de pesquisa, acho que só vale de pontos a mais um uma possível prova de título em um concurso público. Nosso país precisa absorver esses pós-graduados. Não podemos ter a profissão de pesquisadores? Nosso país gera tanta tecnologia assim para a quantidade de doutores e mestres que produzimos? Ou será que estamos formando uma massa de desempregados super qualificados? Qual o futuro de um doutor? Pós doutorado atrás de pós doutorado para ter uma bolsa?

Um doutor não pode nem financiar um carro no nome dele. Ele não tem comprovante de renda! É um absurdo! Temos prazo de validade, esse prazo é a data do término da bolsa! Ou quem sabe, te pasteurizam de novo e prolongam essa prazo por mais 2 anos.

É nesse contexto que vemos as notícias de fraude de dados se ampliando cada vez mais. É a pressão para sermos os melhores do mundo, temos que publicar em revistas internacionais. Fazer ciência para o Brasil e publicar para gringos. Tenho certeza que o número de pessoas que leram os trabalhos que participei como um dos autores é ínfimo diante das pessoas que já leram o que escrevi nesse blog.

Mas aonde quero chegar? Acredito que é vital que o Brasil crie instituições para absorver todos estes cientistas altamente qualificados. Pois, ou os perderemos para o exterior ou não vão trabalhar na área que foram altamente capacitados a trabalhar (investimento de milhares de reais no lixo). Ou se não, teremos que abrir 1 milhão de universidades para ter vaga para tanto professor!

Bem, essa é minha humilde opinião. E que venham as críticas…rs

quarta-feira, 18 de março de 2009

O Futuro das florestas tropicais

 futuro-floresta-tropicalClique para ampliar

Do incansável Wulffmorgenthaler.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Especial da Sociedade Lineana sobre Darwin e Wallace



Capa do número especial



No ano passado comemoramos 150 da leitura perante a Sociedade Lineana de um texto que é pouco conhecido pelo público em geral. Ele reunia o artigo de Alfred Wallace "Sobre a tendência das variedades a afastarem-se indefinidamente do tipo original", techos do "A Origem das espécies" de Darwin e uma carta de Darwin a Asa Gray (botânico norte-americano) de 1857 comprovando que as conclusões de Wallace e Darwin sobre a origem das espécies foram feitas de forma independente. A leitura deste texto por Charles Lyell e JD Hooker foi realmente um marco histórico.

Em comemoração aos 150 anos da Teoria da evolução de Darwin e Wallace a mesma Sociedade Lineana preparou um número especial que está disponível de forma gratuita (clique aqui para baixar o pdf). Além do texto original lido perante a sociedade há 150 anos atrás, temos uma reunião de vários artigos sobre a vida e obra de Wallace e Darwin. Particularmente interessante são os artigos relacionados a Wallace, sempre bem vindos em uma situação de certa escassez de material sobre este grande naturalista. Este realmente não é apenas mais um especial lançado este ano sobre Darwin. Vale a pena a leitura completa.


terça-feira, 10 de março de 2009

Porque Darwin não descobriu as leis de Mendel?



Robin Marantz Henig (2001). O monge no jardim. Editora Rocco.


Definitivamente a hereditariedade é um conceito que Darwin nunca entendeu corretamente. E não podemos dizer que as tentativas foram poucas. Dois volumes inteiros publicados em 1868 foram dedicados a isso, sob o nome de "A variação dos animais e plantas sob domesticação", além de vários experimentos feitos na sua casa em Down (sua última residência) sobre este mesmo tema.

Praticamente ao mesmo tempo, Gregor Mendel, um monge da Morávia (região central da República Tcheca), desenvolveu um trabalho com ervilhas no jardim de seu mosteiro. Seu trabalho foi lido para a Sociedade de História Natural de Brunn em 1865, mas não teve o que podemos chamar de "sucesso". Em 1884, o considerado atualmente como pai da genética, morreu sozinho e desiludido. Apenas 16 anos depois de sua morte e 35 anos depois da publicação de seu trabalho, o legado de Mendel foi finalmente redescoberto, de forma independente por vários cientistas. Hoje devido a velocidade de publicação e disseminação de artigos científicos via internet, a ideia de que um trabalho científico de tamanha importância como o de Mendel para a teoria da evolução passou despercebido por Darwin é realmente inconcebível. Mas pensando em uma época onde a forma mais comum de disseminação de artigos científicos era a leitura dos mesmos em reuniões de sociedades científicas, podemos compreender melhor este lag. Mas será que Darwin poderia ter descoberto as leis Mendel sobre hereditariedade de forma independente? Em um artigo publicado no periódico Journal of Biology, Jonathan C. Howard discute esta questão. O artigo é aberto, sendo apenas necessário o cadastro no sítio do periódico para baixar o pdf.

Darwin poderia ter sido um mendeliano, mas temos que reconhecer que o monge tinha uma certa vantagem nas ciências exatas. Mendel tinha conhecimentos profundos de matemática, estatística e probabilidade, algo que Darwin não dominava, fato revelado por ele mesmo em sua autobiografia. Mas esta situação não impediu que Darwin tivesse uma grande importância no avanço da estatística.


"Nos três anos que passei em Cambridge, meu tempo foi tão completamente desperdiçado, no que diz respeito aos estudos acadêmicos, quanto em Edimburgo e na escola. Experimentei a matemática (...) mas meus progressos foram lentos. O trabalho me repugnava, principalmente por eu não conseguir perceber nenhum sentido nos primeiros passos de álgebra. Essa impaciência foi uma grande tolice. Em anos posteriores, lamentei não ter seguido adiante, pelo menos o suficiente para compreender um pouco os princípios centrais da matemática, pois os homens assim dotados parecem ter um sentido a mais. Entretanto, não creio que conseguisse ultrapassar um grau muito baixo."
Charles Darwin. Autobiografia. Página 50.


Mesmo assim, o jardim de Down era muito utilizado para experimentos de todo o tipo, com características bem semelhantes do jardim utilizado por Mendel. Desta forma, outro fatores pesaram mais para que Darwin não tivesse fechado de forma mais coerente os aspectos relacionados a herança. A certeza de que a teoria da pangênese estava correta era uma delas. Darwin era um fã incondicional da "Hipótese provisória da pangênese", teoria de aspectos lamarckistas onde todas as características de um organismos estariam representadas em "gêmulas". Estas seriam modificadas ao longo da vida e posteriormente misturadas durante a reprodução sexuada. A pangênese era bem aceita na época e não foi questionada pelos evolucionistas até então.

Mesmo realizando vários experimentos onde conclusões poderiam ser obtidas em direção as leis mendelianas, Darwin nunca chegou perto de questionar a hipótese da pangênese. Como Jonathan Howard descreveu no seu artigo "(...) se Darwin falhou em descobrir as leis de Mendel, não foi porque ele carecia de genialidade ou talentos matemáticos ou mentalidade experimental, mas particularmente por causa da forte tendência do que ele já possuía". Charles Darwin não chegou a uma conclusão correta sobre o mecanismo chave da teoria da evolução por estar plenamente convencido de que a pangênese era a hipótese mais correta.


"Tanto como é me dado julgar, não tenho a tendência de seguir cegamente a opinião de outros homens. Tenho feito um esforço sistemático de manter minha mente livre, de modo a abandonar qualquer hipótese , por mais amada que seja (...), tão logo os fatos revelem opor-se a elas. (...) não sou muito cético, mentalidade que creio ser prejudicial ao progresso da ciência; para evitar perda de tempo, um cientista deve ter boa dose de ceticismo. Porém, conheci muitos homens que foram impedidos pelo ceticismo de fazerem experimentos ou observações que poderiam ter-se revelado úteis, direta ou indiretamente."

Charles Darwin. Autobiografia. Páginas 123-124.



Talvez se Darwin estivesse aberto a outros aspectos e fosse menos dogmático em relação a pangênese, ele pudesse ter descoberto as leis de mendel. Será que faltou um pouco mais de ceticismo a Darwin?


Referências:

Charles Darwin (2000). Autobiografia 1809-1882. Editora Contraponto.
Jonathan C Howard (2009). Why didn't Darwin discover Mendel's laws? Journal of Biology, 8:15.

Leia os posts de outros blogs que comentaram o artigo:
Greg Laden´s Blog
Origins

segunda-feira, 9 de março de 2009

Quer salvar o planeta? Não tenha filhos!

Caros amigos, com um artigo recomendado pelo Luiz, pode-se confirmar com mais base o que era discutido no post "O conselho mais brilhante que já vi". Nos últimos anos, vimos em vários sites e blogs ambientalistas calculadoras de carbono. O que é isso? São programas que estimam as emissões de CO2 de suas atividades cotidianas, por exemplo, quantas toneladas de carbono você gera indo de carro todo dia para o seu trabalho.

Um trabalho que saiu recentemente na conceituada revista científica Global Environmental Change aborda este tema de emissões individuais de carbono de uma maneira nova. Muito mais do que ir ou não de carro para o trabalho (obs. quero ver esses ambientalistas indo de bicicleta para o trabalho aqui no Rio de Janeiro, sob calor de 40 graus!), ou quantas vezes você viaja de avião por ano, etc, etc e etc... O fator primordial de suas emissões individuais é ter ou não filhos! Isso mesmo, é você deixar ou não descendentes.

O cálculo é um pouco complexo e leva em consideração o tempo de vida de uma linhagem, isto é, o tempo de vida de uma árvore que começa com uma fêmea (fêmea inicial) até o término desta árvore com a morte da última fêmea com algum grau de parentesco (por mais distante que seja) com a fêmea inicial. Além disso, esses cálculos foram realizados para os 11 países mais populosos do mundo, levando em consideração suas taxas de fertilidade feminina, suas expectativas de vida e quantos anos cada descendente gerado acrescenta a sobrevivência do legado da fêmea inicial. Após isso, com a emissão per capta de CO2 de cada país, integra-se a quantidade de descendentes gerados com o tempo de vida daquela árvore. Com isso, chega-se ao total de CO2 produzido pela fêmea inicial e pelo seu legado, isto é, os indivíduos com algum grau de parentesco (filhos, netos, bisnetos.... e assim por diante). Estes cálculos são analisados em três cenários relativos a quantidade de CO2 emitido por cada país: constante, pessimista e otimista. Todos baseados em dados do relatório do IPCC, por exemplo, no pessimista, a taxa de emissão de CO2 por pessoas aumenta 1,5X entre 2005 e 2100.

Mas vamos ao que realmente interessa: os resultados finais! Olhem a tabela abaixo:


Observem na primeira coluna os países analisados, na segunda coluna a emissão per capta, na terceira coluna a emissão da ancestral (fêmea inicial) durante sua vida toda no cenário constante (entre parênteses os cenários otimista e pessimista) e na quarta coluna o quanto é adicionado nas emissões de uma pessoas a cada filho que ela tem (entre parênteses os cenários otimista e pessimista).

Observem esta outra tabela:



Ela nos diz o quanto de carbono é deixado de ser emitido (durante a vida de uma pessoas) se a mesma tomar uma das ações presentes na primeira coluna. Bem, não precisamos falar muito. A tabela já diz muito! É importante ressaltar que este trabalho leva em conta valores individuais e não populacionais, isto é, para cada filho que uma mulher americana tenha, mais 9441 toneladas de carbono serão emitidas durante a vida da mãe. É o maior valor dentre os países analisados, é quase 7X mais que uma mulher chinesa, porém a população da China é muito grande, assim, no total, por mais que a criança americana gere mais CO2, a China pode emitir mais que os EUA na total.

Então, antes de achar que usando menos o seu carro, ou trocando suas lâmpadas incandescentes por fluorescentes você estará fazendo a sua parte, pense na idéia de não ter filhos, ou somente 1! Mas se seu instinto de ter filhos fala mais alto, leia a música do Léo Jaime (Rock da Cachorrada):

"Troque seu cachorro
Por uma criança pobre
(Baptuba! Uap Baptuba!)
Sem parente, sem carinho
Sem rango, sem cobre
(Baptuba! Uap Baptuba!)
Deixe na história de sua vida
Uma notícia nobre...
Tem muita gente por aí
Que tá querendo levar
Uma vida de cão
Eu conheço um garotinho
Que queria ter nascido
Pastor-alemão"

Quero ver o Al Gore falar alguma coisa! O cara teve 4 filhos! Péssimo exemplo dado pelo rei dos ambientalistas!

Referência: Murtaugh, P.A. & Schlax, M.G. 2009. Reproduction and the carbon legacies of individuals. Global Environmental Change 19: 14-20.

terça-feira, 3 de março de 2009

Sobre adsense e blogs de ciência


Descobri hoje via twitter que o famoso blogueiro de ciência americano PZ Myers vai passar a ter uma coluna no jornal britânico de renome internacional "The Guardian". Na verdade ele não escreverá sozinho esta coluna. Além do biólogo-blogueiro, também foram recrutados um físico, um psicólogo, dentro outros. Cada um deles será responsável por uma coluna mensal, em um blog dentro do sítio do The Guardian.

Bem, com nomes de peso achei que valeria a pena a visita do novo blog. O conteúdo é bem interessante e vale a visita. Mas o que me motivou a escrever este post não foi a qualidade do blog. O motivo real foi um susto que eu levei quando entrei lá pela primeira vez (e que se mantem até agora no ar).





Reparem nos banners de propaganda na barra lateral e no topo do blog. Se você desconfia que tem algo de errado em uma revista que estampa na capa "Criação ou Evolução", você acertou em cheio. Não é só uma revista com um conteúdo criacionista tradicional (pseudociência de quinta categoria). É uma revista de ótima qualidade gráfica que é entregue de graça na sua casa com conteúdo criacionista tradicional. Então vamos refletir. Uma propaganda em um blog sobre ciência, no sítio de um dos jornais de mais prestígio do mundo. Você confiaria na fonte? Tenho certeza que 99,9% das pessoas confiariam. Ainda mais que você pode ganhar um livro de graça! Pessoas acreditam em qualquer bobagem na internet, imagina em algo dentro de um portal de pestígio. Pelo resumo do livro você já pode ter uma ideia do conteúdo. Tirei uma pérola dando uma olhada rápida no pdf do livro. Ele começa devagar, mas já mostra para o que veio.

"Evolucionistas exercitam a percepção seletiva quando olham para a evidência - como decidir se o copo está meio cheio ou meio vazio. Eles escolhem insistir mais em similaridades do que em diferenças. Fazendo isso eles te levam para longe da verdade da matéria: que similaridades são evidências de um designer comum atrás da estrutura e funcionamento das formas de vida."

Creation or Evolution? Página 32.


Uma pergunta simples seria..."Como o The Guardian deu espaço para uma propaganda deste tipo em seu blog de ciência?". O jornal não "deu espaço" para esta notícia específica. Ele apenas se rendeu ao senhor da internet mundial, aquele que não podemos citar o nome. O mais odiado e adorado. O Google. Este não é um problema apenas do blog de ciência citado acima. A maior parte dos blogs, principalmente do blogspot (serviço 'gratuito' do google), utilizam a ferramenta de propaganda chamada adsense. As vezes podemos ver vários banners de propaganda antes mesmo de um blog novo ter mais do que 1 post. As pessoas fazem isso porque ganham rios de dinheiro com o Google Adsense? Não, longe disso. Para ganhar dinheiro com adsense você precisa apenas de uma coisa: milhares de acesso. A maior parte dos blogs estão longe de terem centenas de acessos por dia. Desta forma fazemos propaganda praticamente de graça e, dependendo da sorte, apresentamos propagandas com um conteúdo bem questionável dentro dos nossos blogs. Esse problema se agrava quando estamos falando de blogs de ciência.

Como muito discutido no EWCliPo, blogs de ciência realmente nunca terão o mesmo número de acessos de blogueiros profissionais como o Cardoso e o Edney. Podemos procurar maneiras de aumentar nossos acessos, mas cair em certas armadilhas é muito fácil. Vamos falar de temas mais populares? Linguagem mais simplificada? Estes podem ser caminhos. Mas queremos isso para os nossos blogs ? Temos a ferramenta ideal, onde não estamos submetidos a ditadura da maioria dos canais de televisão. Publicação fácil de textos, alcance quase ilimitado. De certa forma, o lucro com blogs (através de propaganda) pode ser a morte prematura de uma ótima ideia. Não em blogs em geral, que visam apenas mais acesso e grana. Mas em blogs que visam o conteúdo, como os "blogs de ciência".

Podemos cair no mesmo erro da televisão aberta e da paga. Mesmo em canais que teoricamente não são tão pressionados pela audiência como o Discovery Channel, podemos ver o crescente e avassalador domínio da pseudociência e ambientalismo. OVINIs, espirítos e "termas verdes" são pautas recorrentes da programação. Um canal que tinha tudo para focar em ciência tomou um caminho bem diferente. Será que é pela qualidade da equipe? Talvez. Mas acho que nada é maior do que a pressão do público. Eles transmitem o que o público quer, o que dá audiência. Algo fora deste escopo acaba tendo baixa audiência, o que resulta em menos publicidade. Queremos passar por esta pressão da audiência?

Depois de refletir sobre tudo isso, resolvi fazer um adsensecídio. Como vocês devem ter percebido, o blog não apresenta mais propagandas de qualquer tipo. Pode não parecer nada demais, mas acho que é importante a reflexão em escala maior. Precisamos sim de leitores, pois sem eles a divulgação científica perde o sentido. Mas a qualquer custo?


Comecei essa discussão com o Charles e Água neste post do "Um longo argumento" e continuamos aqui em um post meu (ver comentários).

segunda-feira, 2 de março de 2009

Presidente do IPCC no roda viva

Hoje (02/03/09), o programa Roda Viva reapresentará a entrevista com Rajendra Pachauri. Rajendra é o presidente do IPCC (Painel intergovernamental de mudanças climáticas). Sendo que em 2007, o IPCC e o fanfarrão do Al Gore ganharam o prêmio Nobel da paz.

RAJENDRA PACHAURI

O IPCC não faz pesquisas científicas, isto é, não produz os dados utilizados em suas projeções. Para ser o mais imparcial possível, ele se utiliza dos dados da literatura científica mundial, deste modo, o que ele projeta é somente o que é consenso científico mundial. É claro que existirão opiniões contrárias e, até, possíveis erros, pois como sabemos (ou deveríamos saber) ciência não é a verdade, e sim um apanhados de hipóteses, alguns fatos e possíveis explicações para isso. Mas, na minha opinião, algo muito melhor que dogmas, mas isso deixemos para lá.

O IPCC faz parte do Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) e da Organização Metereológica Mundial.

Vale muito rever essa entrevista, para quem puder, o programa começa às 22:10 na TV Cultura.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O que palestras de biologia e shows de rock tem em comum?


Ron Vale gig poster
"Como motores moleculares funcionam". Poster-convite para uma palestra. Crédito: gigpsforscis


Tudo, segundo o Departamento de biologia da universidade da Carolina do Norte. Eles convidaram uma dupla de designers para fazer posters de palestras realizadas pelo departamento. Até aí, nada demais. O diferencial estava em que não eram designers comuns. Eram especializados em fazer posters e camisas de bandas de rock. O resultado desta parceria você pode conferir aqui. Fica a ideia para congressos brasileiros. O público com certeza iria aumentar muito, somando os desavisados que gostariam de assistir ao show da banda "Ron Vale" como no poster que ilustra esse post.

Mais sobre os posters no sítio da revista The Scientist.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Darwin estava certo

Bem, parece que não fui só eu que fiquei decepcionado com a capa da revista de divulgação científica americana New Scientist sobre Darwin. O filósofo Daniel Dennett, o biólogo Richard Dawkins e dois outros autores também não gostaram nem um pouco de ver em uma revista de grande circulação internacional da frase "Darwin estava errado". Eles demostraram esta decepção em uma carta publicada na última semana pela mesma revista. Para entender melhor o problema, leia o meu post comentando o deserviço prestado pela capa infeliz da New Scientist.

Eles começam de forma bem forte: "O que vocês estavam pensando quando produziram uma capa gritante proclamando que 'Darwin estava errado'?". Os argumentos da carta são bem parecidos com a minha reclamação. Além de ser uma afirmação falsa, ela é sensacionalista. Não acrescenta em nada o que já era conhecido. As ferramentas recentes da biologia molecular não invalidam a idéia da árvore da vida. Ela aumenta a complexidade da árvore e a transferência horizontal em eucariotos ainda é um assunto muito polêmico para se tornar um fato consumado. É claro que dar a faca e o queijo na mão dos criacionistas não poderia ser esquecido nesta carta inflamada. Segundo os autores, "(...) horas depois da publicação, membros da secretaria de educação do Texas estavam citando o artigo como a evidência que os professores precisavam para ensinar 'fraquesas da evolução' inspiradas em criacionismo (...)".

Para terminar, Dennett, Dawkins e colaboradores reafirmam a infelicidade da última edição da New Scientist: "Vocês deram muito trabalho extra, desagradável para os cientistas cujo trabalho vocês deveriam estar explicando para público geral. Todos nós agora devemos tentar corrigir todo o mal-entendido que sua capa produziu".

Assino embaixo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Vantagens e desvantagens de ser uma planta



Clique para ampliar


- Ahhh. Você deve ter inveja.
- Porque?
- Fotossíntese! Você tem que andar por aí para conseguir comida, e eu só...fico aqui no sol.
- Ei, o que é aquilo ali?
- O que? O que é? O que ? Onde? Volte aqui e... Droga.


Não deixe de conhecer o Bird and Moon.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Google Maps + artigos científicos = AuthorMapper!





Em seu caminho para dominar o mundo, o Google lançou a ferramenta "Google Maps". Além de fazer a tradicional busca por endereços, a ferramenta ainda permite a vizualização de fotos da Lua, do céu e até do planeta Marte. Dentro deste contexto, a Springer, gigante da editoração científica mundial, teve uma ideia simples e interessante. Temos uma base de dados com milhares de artigos científicos e este número aumenta a cada dia. Porque não colocamos a localidade dos autores na ferramenta de mapas do google? E assim foi criado o AuthorMapper.


Visão dos últimos 100 artigos publicados na base Springer.


Podemos ver no mapa uma escala de cor à direita. Quanto mais vermelho, maior é o número de artigos publicados por autores de determinada região. Além disso é importante lembrar que uma marcação no mapa pode agrupar artigos de localidades próximas, indicando mais de um artigo. Aumente o zoom do mapa para refinar a escala. Além da visão dos últimos cem artigos publicados na base Springer, podemos ver também os artigos divididos por assunto (Química, biomedicida, filosofia, etc). Outra opção de filtro mais avançada é a busca por autor, instituição, periódico, país e data de publicação. Enfim, uma ferramenta interessante para aqueles dias em que não conseguimos passar da primeira linha daquele artigo engavetado.


Visão dos últimos 100 artigos publicados na base Springer. Detalhe: América do Sul


No horário em que visitei o sítio do AuthorMapper, dentre os 100 últimos artigos publicados na base Springer podemos reparar que 4 são do Brasil, sendo 2 do Rio de Janeiro e 2 do Paraná. Temos um artigo do Departamento de física teórica da UERJ, outro da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e dois da Universidade Estatual de Maringá. Lembre que temos só uma marcação no Paraná porque os dois artigos foram publicados por autores da mesma Universidade.

As possibilidades mais interessantes podem ser a exploração de padrões de publicação de artigos, entender novas tendências e histórico das publicações, dentre outras. Mas a que eu acho mais interessante seria achar uma pessoa lá no Casaquistão que publicou um artigo sobre o mesmo tema do meu doutorado ou mestrado. Alguns cliques no google e posso chegar ao email do autor. Coisas da internet.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Países desenvolvidos: Maiores emissores de gases estufa e ainda se dão bem!


Os EUA foram por muito tempo os maiores emissores de gases estufa para atmosfera. Junto com os países que passaram pela revolução industrial dos séculos XVIII e XIX, podem ser os responsáveis pela intensificação do efeito estufa no planeta. Isto é batido. O papel de cada país industrializado é bem sabido. O problema é global.

Entretanto, estudos realizados pela equipe do cientista atmosférico Darryn Waugh chegaram a conclusões impressionantes e, por incrível que pareça, injustas! Através de modelagens de dinâmica atmosférica e transferência de energia observaram que a parte mediana do hemisfério sul sofrerá uma diminuição das taxas de produção de ozônio, atrasando a recuperação da camada do referido gás sobre esta parte do planeta.

Esta foi a parte impressionante da conclusão, a injusta vem agora. Na parte mediana do hemisfério norte (EUA, Canadá e Europa), o padrão é inverso. Lá as taxas de produção de ozônio na estratosfera estão aumentando, havendo assim uma recuperação mais rápida desta camada sobre esta parte norte do planeta. Mas o que existe de injusto nisso? Vocês me perguntam. O injusto é que estes padrões de recuperação acelerada e retardada se devem ao aumento de CO2 e outros gases estufa na atmosfera. Com o aumento, padrões de circulação global de ar foram alterados. Assim, a estratosfera sobre o hemisfério norte está ficando mais gelada, diminuindo a degradação do ozônio. Já na parte sul do planeta, a estratosfera está mais quente, prejudicando a recuperação da camada de ozônio.


Volta de uma prainha no feriadão


Assim, além de gerarem um problema global, os países desenvolvidos podem aumentar as taxas de incidência de câncer e problemas oculares nos habitantes do hemisfério sul. Pois a camada de ozônio, como bem sabemos, funciona como um filtro solar para nosso planeta diminuindo a incidência de raios UV-B na superfície terrestre.

Eles causam o aumento da temperatura do planeta e nós tupiniquins saímos com menos roupas e frequentamos mais nossas praias. Assim ficaremos por mais tempo sujeitos ao câncer de pele, por exemplo, pois nossa camada de ozônio vai demorar mais tempo para atingir sua espessura normal (antes da invenção dos gases CFC's). Malditos yankes! Prejudicam até nosso lazer!

Fonte: ScienceNOW

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Vestindo sua molécula preferida



Cafeína


Tem camisa para todos os gostos. Para os bêbados, ansiosos, deprimidos, chocólatras, terroristas, fumantes...

Encontre a camisa que mostra quimicamente a sua preferência aqui.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Descobertas novas espécies de tentilhões em Galápagos



Tentilhão-cerveja, Tentilhão-vinho, Tentilhão-pinça, Tentilhão-pizza. Crédito: LightBulb cartoon


Em homenagem ao aniversário de 200 anos de Charles Darwin, nada melhor do que um dos exemplos mais marcantes de sua vida, os tentilhões de Galápagos. Entenda melhor como Darwin usou os tentilhões como um dos principais argumentos em favor da teoria do ancestral comum neste sítio.

Para ler o que já publicamos sobre Darwin e entender um pouco mais da sua importância histórica, clique aqui.

Darwin foi o primeiro ecólogo?

Darwin, a meu ver, foi um visionário. Diante do que ele dispunha, tanto de conhecimento científico, quanto de tecnologia, foram brilhantes suas conclusões. Porém o mais importante foram os desdobramentos de sua teoria na sociedade humana. Não vou começar a falar aqui sobre darwinismo social ou religião. O primeiro somente mostra como os capitalistas usam de todos os artifícios para justificar suas atrocidades, mesmo estando completamente errados sobre os conceitos de seleção natural. E sobre religião, não quero me deter nesse tema por enquanto.

Por mais que possuísse o título de naturalista, ele foi, na minha opinião, um dos pais da ecologia. Darwin, por várias vezes, usava termos como "economia da natureza" e "vaga" no seu célebre A Origem das espécies. Ele nada mais fez que antecipar os conceitos ecológicos que viriam a ser definidos em 1935 (Tansley) para ecossistema e para nicho, primeiramente, em 1933 (Elton começa usar este termo) e, depois, em 1957 (Hutchinson define o conceito moderno de nicho). A economia da natureza de Darwin, leva em consideração importância da interação dos fatores bióticos e abióticos para o funcionamento deste complexo sistema. Ele dizia que a quantidade de vagas na economia da natureza não era infinita, além disso, que quanto mais próximas as espécies maior a competição entre elas (sobreposição de nicho).

Além disso, a teoria de Darwin foi bastante importante para a saúde humana. Imaginem se não entendêssemos de seleção natural e tivéssemos que usar antibióticos? A resistência que algumas bactérias adquirem a antibióticos é facilmete explicada pela seleção natural. Deste modo, pudemos compreender como este fenômeno funciona e assim, remediá-lo.

Darwin foi muito importante para nós seres humanos e, principalmente, para todos os outros organismos vivos. Ele foi o primeiro a entender que todos temos um ancestral em comum e que, nós humanos, somos só mais uma espécie na natureza, suscetível a extinção como todas as outras. Grande Darwin!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Amazônia NÃO é o "pulmão" do mundo. Ou pode ser?



Rio Renato, município de Itaúba - MT, Brasil. Crédito: leoffreitas


Desde a minha época de colégio já tratava-se o tema como algo "ultrapassado". Se você chamasse a Amazônia de o "pulmão do mundo" era considerado no mínimo muito desinformado. Qualquer professor de biologia de colégio iria trazer a luz para os seus alunos dizendo: "A floresta amazônica respira todo o oxigênio que produz via fotossíntese. Sendo assim ela é neutra". Bem, o cálculo não é tão simples assim.

Podemos resumir esta questão pensando em uma razão muito utilizada por ecólogos. A razão entre produtividade primária e biomassa em um ecossistema, a famosa razão P/B. Em um estágio inicial da sucessão ecológica a tendência é que um ecossistema apresente uma alta razão P/B, devido a maior quantidade de plantas pioneiras que apresentam uma menor biomassa em relação a sua taxa fotossintética. Já em um estágio mais avançado da sucessão a razão P/B tende a diminuir, pois as plantas tardias passam a dominar com sua grande biomassa não-fotossintetizante. Desta forma, a teoria da neutralidade das florestas maduras parece a mais correta. Florestas maduras são dominadas por plantas tardias, tendo uma baixa razão P/B. Assim a taxa de respiração total do ambiente seria tão alta como a taxa fotossintética, resultando em um consumo interno de todo o oxigênio produzido. Será que a prática corrobora a teoria?

Pelo título do post parece que estou defendendo a analogia do pulmão do mundo. É claro que ela está errada em princípio. Mas a explicação do professor de biologia de colégio e a teoria da razão P/B que citei acima pode estar sendo muito simplista. Hoje sabemos que a maior produção líquida de oxigênio é creditada as microalgas, mas será que as florestas antigas não podem também colaborar com este balanço positivo? A teoria de neutralidade das florestas antigas em relação ao ciclo do carbono recebeu uma forte crítica em Setembro do ano passado no periódico Nature. Vamos tentar entender este ponto de vista.





O artigo copilou mais de 500 trabalhos em florestas antigas e mostrou que a maior parte das florestas entre 15 e 800 anos apresentava uma produtividade primária líquida positiva. Esta taxa refere-se ao balanço entre produtividade primária e respiração. Quando apresenta um número positivo, indica que a produção de oxigênio e, consequentemente, a fixação de carbono, é maior que a taxa de respiração. Além disso os autores ainda criticam a ideia de que florestas novas são as que mais fixam carbono. Segundo eles, as florestas novas são formadas principalmente pela degradação de uma área previamente florestada, resultando em uma maior taxa de decomposição da matéria orgânica do solo e da serrapilheira devido a este impacto.

É claro que não devemos extrapolar os dados desta copilação. Mesmo sendo bastante significativa (519 trabalhos copilados), os dados são referentes apenas a florestas boreais (30%) e florestas de clima temperado (70%). Os dados referentes a florestas tropicais disponíveis para a copilação eram apenas 12 e foram descartados pelos autores devido ao baixo número. A maior média (ou mediana, depende) de temperatura e umidade (dentre outras peculiaridades) das florestas tropicais provavelmente poderiam alterar o resultado publicado. Mas, com certeza, um estudo com um n amostral desta magnitude não pode ser desconsiderado.

Cerca de 30% das áreas de floresta do mundo são consideradas primárias e, sendo assim, antigas. As florestas antigas boreais e de ambientes de clima temperado sozinhas podem ser responsáveis por até 10% da produtividade líquida global. Além do carbono acumulado durante séculos, tanto no solo como em biomassa viva, a importância das florestas antigas como fixadoras de carbono não pode ser negada. Mesmo sendo desconsideradas pelo protocolo de quioto, o artigo da Nature mostra que devemos conservar estas florestas pelo que elas são hoje e não apenas pelo que elas acumularam ao longo do tempo. Desta forma, não subestime quem diz que a amazônia é o pulmão do mundo. Ele pode estar usando uma analogia errada, mas não está tão longe da verdade.


Referência

Sebastiaan Luyssaert, E. -Detlef Schulze, Annett Borner, Alexander Knohl, Dominik Hessenmoller, Beverly E. Law, Philippe Ciais & John Grace. Old-growth forests as global carbon sinks. 2008. Nature 455: 213-215


Update - 14/02/09 - 10:01


Não deixem de ler o comentário/post feito pelo Saci, do blog do pessoal da ecologia do Inpa. Deixei também um comentário no post dele, continuando a discussão. Muito obrigado pelo complemento de qualidade Saci.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Como NÃO fazer divulgação científica em rede nacional

"O que chamamos de divulgação científica é o reflexo de um modo de produção de conhecimento restringido e, consequentemente da constituição de um efeito-leitor específico relacionado à institucionalização, profissionalização e legitimação da ciência moderna, e que opõe produtores e usuários/consumidores e, cria a figura do divulgador, que viria, imaginariamente, restabelecer a cisão, e minimizar a tensão instaurada ao longo da história no tecido social da modernidade. Essa cisão não é mantida sem tensão, sem a (re)produção tensa de um imaginário que a mantém. É nesse imaginário que trabalha a divulgação científica."


Henrique César da Silva. 2006.
O que é divulgação científica?
Revista Ciência e Ensino


Entendi que devemos tentar minimizar a tensão entre o público leigo e o meio científico. Que devemos restabelecer esta cisão formada ao longo da história. Mas acho que os repórteres da Globo estão pegando pesado. Depois de mostrar para os futuros professores de biologia como NÃO se deve ensinar seleção natural para seus alunos, a segunda parte do seu especial sobre os 200 anos de Darwin chegou ao ponto extremo (pelo menos até aqui, pois ainda faltam 2 partes).

Depois de 21 minutos de programa com uma qualidade razoavelmente interessante, entrevistas (superficiais) com filósofo Daniel Dannet (autor do livro "A Perigosa ideia de Darwin") e com o biólogo Richard Dawkins (que dispensa apresentações), temos um furo muito comum em documentários desta natureza. Depois de 21 minutos sem intervalo de pouco muito conteúdo, o que devemos fazer para manter o público interessado? Fazemos uma analogia sem contexto e que, com certeza, além de errada, não trás nem de longe algum acréscimo de informação. Uma pena. Vejam com os seus próprios olhos.





"Agradecer" a seleção natural? Um "cordão nervoso" ao longo de milhares de gerações deu uma nova função a boca? E isto explica porque beijar é tão bom ? Pelo amor de Darwin. Não tinha nada melhor para fechar um especial sobre os 200 anos de um dos maiores cientistas da nossa história ?

Se isso é divulgação científica, com certeza estou muito longe de fazer isso. E quero continuar assim. Depois dessa experiência marcante, gostaria de convocar todos os biólogos a dedicarem parte ou grande parte do seu tempo a divulgar ciência. Precisam de nós. E com urgência.


Referência:

Henrique César da Silva. 2006. O que é divulgação científica? Revista Ciência e Ensino 1(1): 53-59. Link para o artigo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O conselho mais brilhante que eu já vi (Isso que é se preocupar com o meio ambiente)

Um assunto polêmico tem tomado conta das discussões na Grã-Bretanha. Um dos principais conselheiros para assuntos ambientais do governo britânico foi MACHO de falar que o grande problema ambiental é a superpopulação, deste modo ele recomendou que os casais britânicos não tenham mais que 2 filhos. Mas por que 2 filhos? Quando temos dois filhos compensamos nossas mortes, então duas pessoas botam mais duas no mundo e um dia morrerão. Depois de um tempo esta população entra em um equilíbrio e a taxa de crescimento fica nula. Se cada casal tiver, por exemplo, 1 filho, se este comportamento for incorporado na sociedade, a taxa de crescimento populacional vai ficar negativa. Isto é, a população vai diminuir.

"Muitas organizações acreditam que não é parte de seu negócio. Minha missão com os Amigos da Terra e os Greenpeaces deste mundo é dizer: 'Vocês estão traindo os interesses de seus membros ao se recusar a lidar com questões de população e estão fazendo isso pelas razões erradas, porque acreditam que o assunto é muito controverso'."
Disse o conselheiro Jonathon "cabra macho" Porrit (Tapa na cara de qualquer greenpace da vida!)


Para mim, o grande problema ambiental é suprir a gigantesca população humana com os bens de consumo produzidos pelo capitalismo. Não quero dizer que os mais pobres devem ficar sem direito a nada, pelo contrário, quero que todos tenham um mínimo digno para sua vida. Então o que devemos ter que fazer imediatamente? Parar de fazer com que a população humana cresça! E como? Controle de natalidade. Mas tem que ser algo imposto pelo governo? Não! Isso seria uma ditadura. Temos que conscientizar todos na população. Por que uma garota de classe média tem direito de tomar seu anti-concepcional (que ela guarda dentro de sua caixinha rosa da Hello Kitty) e uma menina que mora na favela nem sabe que isso existe?

A escolha de ter 1, 2, 4 ou 20 filhos é da pessoa, mas duvido que se ela tivesse um esclarecimento do problema que isto pode causar, primeiramente, para seus próprios filhos e depois para o meio ambiente e sociedade, que esta pessoa teria mais que 2 filhos. Mas nossos governantes precisam de uma grande massa sem esclarecimento, ops, deixa pra lá!


Cadê o PlayStation deles? (Só seu filho merece?)


Precisamos de políticas públicas de esclarecimento do controle de natalidade. Precisamos mostrar as alternativas contraceptivas para todos, independentemente de sua classe social. Imagina se todos os chineses resolvessem comprar um I-Pod cada... Não ia ter matéria prima para isso no nosso planeta!

É claro que o conselheiro sofreu muitas críticas sobre seus comentários, sendo chamado de maluco por alguns. É difícil jogarem na sua cara que a Amazônia, por exemplo, está sendo destruída para que mais aço seja produzido, para quando seu terceiro filhinho fizer 18 anos, você possa dar um carro para ele. Mas o mais sinistro é que para um menino pobre de 12 anos, o aço mais perto das mãos dele é de uma arma, seja para a guerrilha urbana (ex. Rio de Janeiro) ou seja para guerras étnicas (Ex. Dafur).

Na minha humilde opinião: Primeiro devemos parar de crescer, depois vem a tentativa de uma sociedade mais igualitária. Não é você enchendo sua banheira de hidromassagem até o meio, ou usando sacola de paninho para ir ao mercado, ou trocando suas lâmpadas... entre outros mil exemplos ambientalistas piegas, que você vai ajudar mesmo o meio ambiente! Quer ajudar? Use camisinha ou pílula! E dissemine essa idéia (e não seus espermatozóides, para os meninos é claro!)

Fonte: O Globo - Ciência

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Acidificação dos oceanos desorienta peixe palhaço


O aquecimento global é um assunto muito debatido. Suas origens, seus efeitos e sua intensidade são pontos para grandes discussões. Mas tem uma que achei muito interessante, por mais trágica que ela pareça. O peixe-palhaço é o nome comum que se dá para várias espécies da Pomacentridae. Existem mais de 25 espécies de peixes-palhaço. Mas o interessante é que estas espécies se utilizam do olfato para encontrar abrigo próprio para ele.

Os biólogos marinhos Philip Munday and Kjell Døving, que lideram uma equipe de pesquisadores, fizeram um experimento para observar o efeito da diminuição do pH dos oceanos na orientação deste peixe. Eles fizeram 4 tratamentos: um com o óleo de uma árvore que geralmente atrai o peixe, um segundo com o óleo de uma outra árvore de pântano que o peixe geralmente evita, um terceiro com secreção de anêmonas (lar normal do peixe-palhaço) e um quarto com secreção de parentes dele (o que o peixe evita de seguir). Com o pH padrão dos oceanos atuais, o peixe-palhaço manteve o comportamento normal de preferência de cheiros, mas com um pH de 7,8 os peixes não evitavam mais os odores que antes os repeliam. Eles simplesmente ficaram perdidos.


Peguem o bafômetro para o Nemo (Ele tá doidão)


O pH atual dos oceanos giram por volta de 8,0 a 8,15, porém em algumas partes já é observado uma queda deste valor. Se é devido a uma obsorção do CO2 em excesso na atmosfera, não temos certeza ainda. Mas sabemos que esta capacidade de tamponamento da diminuição do pH de águas oceânicas tem um limite, o que pode levar a uma real diminuição no futuro.

Este efeito foi testado em laboratório, e não se sabe ainda se ele ocorre em peixes selvagens. Porém é de se preocupar, pois outras espécies de peixe também se utilizam de odores para encontrar abrigos mais apropriados.

Fonte: Wired Science

Referência
"Ocean acidification impairs olfactory discrimination and homing ability of a marine fish." Philip L. Munday, Danielle L. Dixson, Jennifer M. Donelson, Geoffrey P. Jones, Morgan S. Pratchett, Galina V. Devitsin, and Kjell B. Døving. Proceedings of the National Academy of Sciences, Vol. 106, No. 4, Feb. 2, 2009.