sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Como andou a temperatura da Terra em 2008?




Tendência da temperatura global tendo como linha de base 1999. Fonte: RealClimate


Como podemos ver no gráfico acima, nada mudou desde a última década. A anomalia de temperatura da Terra sofreu um certo aumento mas recuou para próximo da linha de base. Então podemos ficar tranqüilos. Todo esse papo de aquecimento global não passa de especulação. Bem, na verdade não é tão simples assim. O gráfico acima foi uma demonstração feita pelo pesquisador Gavin Schmidt em seu blog, mostrando como a análise baseada em relativa curta escala de tempo pode implicar em conclusões erradas em relação ao padrão estudado. O gráfico abaixo foi publicado esta semana pela NASA e mostra um padrão bem diferenciado.



Tendência da temperatura global de 1880 até 2008. Crédito: NASA


Podemos ver claramente neste segundo gráfico o efeito da escolha do ano de base em uma análise temporal. O final da década de 90 foi marcado por uma forte oscilação na temperatura (ainda não explicada). Então a escolha de anos como 1997,1998 ou 1999 como ano base para a comparação pode levar a uma conclusão enviesada da tendência. Se escolhermos um ano em que a temperatura registrada era muito alta (como o escolhido por gavin, 1999), o aumento da temperatura nas últimas décadas seria "escondido". Como lembrou Gavin, quem se mostra surpreso com o primeiro gráfico deve ser muito ingênuo... ou não. Gráficos sobre aquecimento global existem muitos na internet e cada um utiliza apenas uma parte deles para confirmar o seu argumento. Prefiro mostrar ambos, assim podemos ter uma reflexão melhor sobre o que é divulgado.

Agora voltando a análise temporal longa. Várias agências como NASA e o NOAA resolveram publicar esta semana os padrões de temperatura registrados neste ano. O último ano meteorológico segundo a NASA (de dezembro de 2007 a novembro de 2008) está entre o sétimo e o décimo segundo mais quente desde que medidas meteorológicas sistemáticas começaram a ser feitas, em 1880. Outra informação importante é que, segundo a mesma agência, dentre os anos mais quentes deste registro, nove ocorreram depois de 1998 (vejam como o ano de 1998 foi muito atípico).

Mais um ponto para o IPCC. Vamos aguardar o próximo ano e conferir as tendências. O mundo não vai acabar como dizem os ambientalistas, mas parece que estamos caminhando para um futuro mais quente. Sendo assim, devemos investir cada vez mais em adaptação a estas mudanças.

Leia mais sobre os dados de temperatura em 2008 no New York Times.
Para ver outros posts sobre Aquecimento Global, clique aqui.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Lago Vitória: exemplo da falta de conhecimento científico

A iniciativa da blogagem coletiva sobre o continente africano é louvável. Com seu histórico de super exploração e degradação ambiental, este continente merece atenção e maiores investimentos em pesquisa.

Um exemplo extremo de como a falta de conhecimento homem pode afetar negativamento um ecossistema seria o caso do Lago Vitória. Este é o segundo maior lago do mundo, com aproximadamente 68.800 Km² ( quase do tamanho da Irlanda), localizado na África oriental (Vale do Rift). Na década de 50, foi introduzido neste lago a espécie de peixe chamada perca do nilo (Lates niloticus). Esta espécie é um predador voraz e pode chegar a pesar 200 Kg. Esta introdução teve objetivo de aumentar o estoque pesqueiro deste lago (vide o peso que esse peixe pode atingir), além de incentivar o turismo, pois este peixe é caracterizado por ser esportivo (mais emoção na pescaria).

A partir deste momento, o pesadelo começou. A perca do nilo se alimenta de ciclídeos nativos do lago. Só que o problema é que ela se alimenta muito! Imagina o quanto ela tem que comer para chegar a 200 Kg? Deste modo, ela praticamente dizimou quase que todas as outras espécies de peixes do lago. Com isso, a dieta dos moradores que habitavam o entorno do lago ficou restringida a perca.

Vocês acham que os problemas acabaram? Não!!! Tem mais ainda! A perca possui alto teor de gordura na sua carne. Assim, o que é feito para a conservação de carnes deste tipo? Defumamos. Com isso, um novo problema é gerado. Houve um intenso desmatamento das florestas em volta do lago para queima de madeira e, assim, com a fumaça, a defumação da carne da perca. Olha o efeito em cascata.

Além disso, outro grave problema de saúde humana. Simplesmente, não perguntaram para os nativos do entorno do lago se eles apreciavam a carne deste peixe. E olhem só! Eles não gostavam! Preferiam as espécies dizimadas pela perca do nilo. Então o que aconteceu? Enorme pressão de caça sobre animais terrestres para suplementar a dieta destas pessoas. Assim, toda a carne de peixe produzida no lago era industrializada e exportada para países asiáticos.

Esse foi parte do problema de origem animal. Entretanto, ainda existe um de origem vegetal. Para fins estéticos (isso mesmo, estéticos) foi introduzida uma espécie de macrófita aquática chamada Eichhornia crassipes (originária daqui das Américas, comumente conhecida como aguapé). Esta macrófita flutuante teve um super crescimento devido a falta de predadores, além do crescente processo de eutrofização do lago. Ambos possibilitaram que este vegetal se tornasse uma praga e prejudicasse a navegabilidade no lago.

Atualmente, o lago Vitória sofre outra ameaça. Devido a construção de barragens para hidrelétricas em alguns rios de desagüam no lago, o nível d'água diminuiu por volta de 2 metros entre 2000-2006. Com isso, alguns alagadiços nas margens do lago secaram, causando a mortandade de juvenis de algumas espécies de peixe. Isto porque elas usavam estas áreas como berçário.

Bem, tentei aqui ilustrar como o homem pode afetar um ecossistema inteiro por falta de conhecimento. Neste caso é clara a importância do cientista (aqui, do Biólogo) para (em uma visão antropocêntrica) saúde humana e (numa visão mais justa) para a natureza no geral. Quando perguntam qual o valor de um médico, qualquer um sabe responder no exato momento. E agora, alguém tem dúvida de qual o valor do Biólogo? Mais claro que isso, IMPOSSÍVEL.

Para uma melhor visualização do estrago, assista o documentário "O pesadelo de Darwin". Ele foi indicado ao Oscar de melhor documentário em 2006 e ganhou outros 8 prêmios internacionais. A versão abaixo está com legenda em espanhol.



  • Primeira parte


  • Segunda parte

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Aquecimento global é um fenômeno natural



"65 milhões de anos atrás - Relaxem. É só um asteróide. Asteróides são naturais."
"79 D.C. - Não se preocupe Pompeii, é só um vulcão! Vulcões são perfeitamente naturais...!"
"14 de abril, 1912 - Boas notícias para todos - parece que atingimos um iceberg! Com certeza temos sorte já que icebergs são naturais...!"
"Hoje - Secas, enchentes, clima 'selvagem', ciclones, aumento do nível do mar, toda essa coisa de mudanças climáticas...tudo natural."



Sendo natural ou não, a discussão sobre a mitigação dos efeitos da aceleração do efeito estufa é mais do que necessária. Lógico, sem ambientalismo sensacionalismo.

Uma tirinha do químico neozelandês Nicholas Kim

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Uso de animais em pesquisa - campanha da FAPERJ

Depois de muita discussão infundada pela grande mídia brasileira sobre o tema, no último mês de outubro foi sancionada a lei que regulamenta o uso de animais em pesquisa científica no Brasil. Um dos grandes tópicos desta lei é a criação do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), responsável por credenciar instituições para criação e utilização de animais destinados a fins científicos e estabelecer normas para o uso e cuidado dos animais. Participarão do conselho a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), representantes dos ministérios da Educação, do Meio Ambiente, da Saúde e da Agricultura; o CNPq; o Conselho de Reitores das Universidades do Brasil (Crub); a Academia Brasileira de Ciências (ABC); a Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE); Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (Cobea); Federação Nacional da Indústria Farmacêutica; e dois representantes de sociedades protetoras dos animais legalmente estabelecidas no país.

Não consegui achar nada no sítio da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) sobre o assunto, mas achei muito interessante o conteúdo destes cartazes, fixados no corredor do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, no Centro de Ciências da Saúde, UFRJ. Se em algum momento os "defensores" de animais pensassem seriamente no conteúdo destes cartazes, tenho certeza que eles concentrariam esforços em regulamentar o uso de animais em pesquisa e não em proibir. Seguem abaixo as fotos que eu fiz dos dois cartazes.


Animal Use in Research - Brazilian CampaignAnimal Use in Research - Brazilian Campaign

PS.: Desculpem a baixa qualidade, fiz as fotos com o meu celular.

Para saber mais sobre a lei aprovada em outubro, clique aqui.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Fomos recomendados pelo site da UEG

Semana passada nosso blog foi recomendado pelo site da Universidade Estadual de Goiás nos links da semana. Quem indicou o nosso link foi o Prof. Ronaldo Angelini e autor do blog Bafana Ciência. Nessa mesma lista de recomendações também foi citado o blog Ciência Brasil do Prof. Marcelo Hermes da UnB, o que foi mais um motivo de orgulho para nós, pois é uma honra dividirmos a lista com blogs desse nível.


Clique aqui e veja a lista completa dos sites recomendos.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Fotografia científica: joaninha


A joaninha pode ser considerada como um caso aparte dentro da ordem coleoptera (grupo que reúne os besouros). Talvez seja devido ao nome popular em português (ou inglês também, "ladybug") ou devido a grande quantidade de desenhos animados, brinquedos e afins que retrataram este curioso animal. Não sei. Mas uma coisa que eu tenho certeza é que toda a criança (e muitos adultos também) acham que todas as joaninhas são fêmeas. Talvez para nós humanos milhares de anos de evolução que resultaram em um par de asas de coloração vermelha com círculos pretos (podem ser de outras cores também) que formam um sinal de advertência para os predadores, teve um efeito adverso. Bem, não tão adverso. Nós humanos evitamos sim predar joaninhas. Mas não pelo medo de obter um alimento de gosto ruim ou venenoso (mecanismo chamado de aposematismo). Mas por achar este animal "bonitinho" e que ele "não faz mal a ninguém".

"Quem você está chamando de 'dama'?!", diz a joaninha Francis de "Vida de Inseto".


Bem, podemos dizer que as joaninhas estão longe de "não fazer mal a ninguém", principalmente se você for da ordem Hemiptera e atender por "pulgão". Numa segunda-feira monótona uma única joaninha pode comer até 50 pulgões, o que é bem significativo para alguém do seu tamanho (elas variam de 1mm a 10mm, aproximadamente). Se você tem uma horta em casa e está cansado de perder grande parte das suas plantas para os pulgões, tente controlar esta "praga" contratando uma ajuda de peso, quer dizer, pouco peso. Lá fora eles vendem joaninhas até em supermercado.



Problemas com pulgão? Seus problemas acabaram! Use 1500 joaninhas em seu jardim e troque um desequilíbrio ecológico por outro! Crédito: pinprick


Agora vamos ao que interessa. A hora da verdade.



"É impossível comer um só". Crédito: HOOKSM


Depois de uma farta refeição, nada como um bom descanso. Bem, não tão bom assim. As joaninhas estão longe de serem predadores de topo. Bem longe.



Libélula acabando com a soneca depois do almoço de uma joaninha. Crédito: Mad Sun


Da próxima vez que uma joaninha pousar em você, pense duas vezes. Você está encarando um predador voraz. Pelo menos para animais milimétricos.

Para ver mais posts sobre fotografia científica, clique aqui.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Como tartarugas lembram onde nasceram?



"É muito fácil chegar lá em casa. Pegue a trigésima ilha à esquerda depois daquela ilha vulcânica, siga uns 500 Km...". Crédito: nadi0


Este mistério que persegue cientistas há décadas ganha mais uma proposta. Segundo o biólogo marinho Kenneth Lohmann a resposta está nos campos magnéticos. "O que nós estamos propondo é que tartarugas (...), quando nascem, basicamente aprendem ou têm marcado de alguma forma o campo magnético da sua área de nascimento.", disse o biólogo marinho ao National Geographic News.

O experimento feito por Lohmann foi interessante. Ele alterou o campo magnético de uma área fechada de água onde as tartarugas estavam e precebeu que a direção para onde elas nadavam mudou. Este experimento mostra que campos magnéticos podem alterar a natação de uma espécie de tartaruga, mas não mostra se este fator tem um efeito no movimento migratório de tartarugas. Para provar o efeito de alteração do campo magnético na migração destes animais seria necessário um experimento muito mais complexo, onde as tartarugas seriam rastreadas e testadas em mar aberto. O artigo que descreve o experimento feito por Kenneth Lohmann será publicado no periódico PNAS.

Vi no 80beats, um blog da revista DISCOVER.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ainda sobre as enchentes

Semana passada falei um pouco sobre o histórico de enchentes em Santa Catarina, o que eu chamei de "mais do mesmo". Esta semana o Olhar Virtual (publicação da coordenadoria de comunicação da UFRJ) publicou uma entravista com Jorge Xavier, chefe do departamento de Geografia da UFRJ. Ele faz uma crítica à mídia que dá aos fatos um tom de novidade, quando na verdade o que temos é uma repetição. Selecionei abaixo alguns trechos da entrevista.

"A fim de mitigar os efeitos de uma chuva de grande porte, devem ser criados planos de contingência, isto é, um levantamento prévio dos locais que podem ser atingidos, uma avaliação de prioridades no que diz respeito à aplicação de recursos e de tempo e um estudo prévio da distribuição dos recursos caso o acidente seja inevitável. (...) diante de uma tragédia como essa, considero válido o envio de verbas feito pelo Governo Federal. Mas devemos ter em mente que esse dinheiro está sendo mal aplicado. Ele deveria ser empregado em ações preventivas. É preciso que os governantes deixem de agir apenas em situações críticas, quando não fazer nada significa uma perda política."

Acho que o Jorge Xavier citou um ponto crucial. Esta semana o prefeito do Rio anunciou o investimento de mais de 10 milhões de reais em um plano de prevenção de enchentes, intitulado "Plano Diretor de Manejo de Águas Pluviais". Medidas como cadastro de 900 quilômetros de rede de drenagem, a inspeção de 1.500 quilômetros de rios e galerias e a aquisição de 40 estações hidrológicas estão previstas. Tirando a questão política de que o vencedor da licitação será anunciado apenas 2 dias antes do fim do mandato do prefeito, acho que medidas como essa são válidas. Botar a culpa de tudo isso no aquecimento global é fácil. O Carlos Nobre apareceu em vários jornais para falar sobre isso. Esse tipo de notícia dá muita audiência. Investir em prevenção é muito mais complicado e, com certeza, não dá audiência.

No final da entrevista, o professor Jorge Xavier lembra do papel de pesquisadores, governo e mídia neste tipo de caso.

"(...) para que tragédias desse tipo não voltem a acontecer é preciso haver uma ajuda mútua entre os pesquisadores e o governo. E também é necessário que a mídia esteja sempre nos lembrando dos efeitos dessa ocorrência evitando que os erros do passado se repitam, no futuro."

Para ver a entrevista completa, leia a reportagem de Lorena Ferraz para o Olhar Virtual.


UPDATE
(12:36 - 05/12/08)



No meio de uma conversa com a Paula sobre a tragédia em Santa Cararina, descobri uma coisa interessante. A famosa Oktoberfest de Blumenau teve origem em um outro evento catastrófico. Vocês conseguem saber qual foi? Uma enchente! Abaixo um trecho sobre a história do evento.

"A Oktoberfest de Blumenau teve sua primeira edição em 1984, logo após a grande enchente em Blumenau, em 1983 Blumenau foi quase totalmente destruída pelas águas do rio Itajai Açu. Inundadas até os telhados, na vazante as casas eram apenas restos enlameados das até então belas casinhas com jeito europeu, caiadas e com cercas cuidadas, muitas flores e frontais de madeira envernizada. Demorou um bom tempo até que a cidade pudesse voltar à uma certa normalidade, com o apoio da prefeitura e do governo do Estado. Mas cada chuva se transformava em uma ameaça. Em 1984, antes mesmo que a cidade estivesse funcionando normalmente, uma nova enchente, de proporções maiores para uma cidade ainda em recuperação da enchente anterior, destruiu Blumenau. "Completamente", dizem alguns blumenauenses. "Menos a coragem do povo", dizem outros..."

Para ler mais sobre a famosa Oktoberfest de Blumenau, entrem aqui.