sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Enigma de Sexta

Não. Você não errou de blog. Também sou biólogo mas sou carioca. Este não é mais um enigma de sexta do Atila. Na verdade a minha ideia está muito mais para pergunta do que para enigma. Então lá vai.

Quem era o naturalista a bordo do H.M.S. Beagle?

A resposta você encontra aqui.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Como NÃO ensinar seleção natural para seus alunos



Bem, depois de uma descrição tão distorcida do que é seleção natural, vamos por partes. O trecho acima fez parte do primeiro programa especial sobre Darwin (de um total de 4) que foi exibido na quarta-feira no canal a cabo GloboNews.

  • "A natureza é uma guerra(1) entre espécies(2)..."

(1) Não meu caro. Primeiro que a utilização do termo "guerra" leva a um erro clássico. É claro que a competição tem um papel muito importante na teoria de Darwin, mas cada vez mais vemos o relevante papel das interações positivas. Em um ambiente como o manguezal, o crescimento radial das raízes de plantas como a Laguncularia racemosa estabiliza o sedimento fino característico deste ecossistema. Desta forma, outras plantas podem agora ocupar a área, mais estável pela contenção do sedimento. É o que chamamos em ecologia de "espécies engenheiras", que alteram o ambiente a sua volta e não estão apenas submetidas as suas flutuações.

(2) Não. A luta pela existência (em termos darwinianos) ocorre entre indivíduos e não entre espécies. O histórico deste pensamento essencialista é muito bem retratado por Ernst Mayr em seu livro "Uma ampla discussão" (FUNPEC editora, 2006), onde ele discute este assunto em um trecho intitulado "Luta entre espécies ou entre indivíduos?". A unidade de seleção (onde realmente a seleção natural atua) é o indivíduo, já que a diferenciação das características "visíveis" pela seleção natural (fenótipo) ocorrem neste nível. Existe uma frente de cientistas que defendem o gene como a unidade de seleção. Segundo um de seus mais famosos defensores, Richard Dawkins, "(...) A unidade de seleção no sentido de replicador é o gene. E no sentido de veículo, o organismo. Ambas são igualmente importantes. Só fazem coisas diferentes. Não estão competindo pelo papel de unidade de seleção". Divergências a parte, a unidade de seleção definitivamente não é a espécie. Quando definimos que a unidade de seleção é o indivíduo abrimos os olhos para a competição intraespecífica, que pode ser tão ou até mais importante do que a competição interespecífica. Se pensarmos apenas em espécie, esquecemos este componente tão importante das interações.

  • "(...) e que as mais fortes e mais adaptáveis são as que sobrevivem"

Mesmos erros do início da frase. Passar a ideia que as espécies (e não indivíduos) são as unidades da seleção. Usar o termo "mais forte" associado a imagem de um leão atacando uma hiena é uma péssima maneira de se passar o conceito de seleção natural. Parece que somente os organismos que forem mais fortes fisicamente sobrevivem. Diga isso as bactérias e archeas. Elas vão rir muito. Outra coisa, o que significa uma "espécie adaptável"? Segundo o tio michaelis, algo adaptável é algo que pode ser adaptado, como um livro é adaptável para se tornar um roteiro de filme. A péssima analogia passa o conceito de que as espécies (segundo o jornalista) podem se adaptar, como se fosse algo direcionado. Na verdade os indivíduos já nascem com um fenótipo correspondente a um genótipo que pode ser ou não vantajoso em seu ambiente específico.

  • "(...) Quando as espécies se reproduzem fazem cópias de si próprias, nem sempre idênticas, pois ocorrem mutações ou desvios que criam variedade. Darwin chamou isso de seleção natural."

Tirando a definição que eu considero pessoalmente ruim de reprodução e mutação, podemos ver neste ponto que o jornalista se perdeu completamente. Será que eu estou sendo tendencioso ou ele disse Darwin chamou as mutações e os "desvios" de seleção natural? Como a geração de variedade pode vir depois do que ele chamou de "guerra"? Não há lógica nesta construção de frase. Primeiro devem ocorrer mutações para gerar variedade e, posteriormente, os indivíduos mais adaptados ao ambiente em que ele está inserido, sobreviverão e terão maior sucesso reprodutivo.

Depois dessa aula de como a divulgação científica não deve ser feita, nada melhor do que o grande biólogo Ernst Mayr para ensinar aos jornalistas da Globo o que realmente é seleção natural.

"(...) O termo, simplesmente, refere-se ao fato de que somente uma pequena parte da prole de um grupo de genitores sobrevive o suficiente para se reproduzir. Não há uma força seletiva particular na natureza, nem um agente seletivo definido. Há muitas causas possíveis para o sucesso de poucos sobreviventes. Alguma sobrevivência é devido a processos estocásticos, isto é, pura sorte. A maior parte, entretanto, é devido ao trabalho superior da fisiologia do indivíduo sobrevivente, que permite enfrentar as vicissitudes do ambiente melhor do que os outros membros da população. A seleção não pode ser dissecada em porções internas e externas. O que determina o sucesso de um indivíduo é precisamente a capacidade da maquinaria interna do organismo (incluindo o seu sistema imune) de enfrentar os desafios do ambiente. Não é o ambiente que seleciona, mas o organismo que enfrenta o ambiente com muito ou com pouco sucesso. Não há nenhuma força externa."
Uma Ampla Discussão. Ernst Mayr. FUNPEC editora, 2006. Páginas 86-87.

A importância dos ambientes aquáticos no ciclo do carbono amazônico

Durante muito tempo acreditou-se que a Amazônia fosse um sumidouro de carbono, isto é, com o crescimento da biomassa vegetal, grandes quantidades de carbono seriam estocadas. Como sabemos, durante a fotossíntese, gás carbônico é absorvido da atmosfera pelos vegetais. Entretanto, pesquisadores brasileiros estão em dúvida sobre o balanço de carbono da floresta.

A pesquisa foi realizada pelo Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, consórcio de pesquisadores de vários países, liderados pelo Brasil, que tem como objetivo "gerar novos conhecimentos, necessários à compreensão do funcionamento climatológico, ecológico, biogeoquímico e hidrológico da Amazônia, do impacto das mudanças dos usos da terra nesse funcionamento, e das interações entre a Amazônia e o sistema biogeofísico global da Terra". Este projeto engloba mais de trezentos cientistas de todo mundo. Renomados pesquisadores brasileiros como Luiz Antônio Martinelli, Carlos Nobre, José Antônio Marengo e outros fazem parte desta equipe. Em 2008, só como exemplo, este grupo publicou artigos nas revistas Science, Nature, Global Change Biology e Ecosystems, além de outras importantes publicações científicas. É um orgulho termos pesquisadores brasileiros na ponta da pesquisa científica mundial.

Voltando a quastão dos ambientes, a equipe do engenheiro agrônomo Reynaldo Victoria (USP) tem analisado a contribuição dos ambientes aquáticos no balanço de carbono da floresta. Pelas suas contas, estes ambientes emitem para atmosfera por volta de 470 milhões de toneladas de CO2 por ano para atmosfera. Isto é 1% do total de emissões globais de CO2 no ano de 2004. Calculando-se a quantidade por área, é aproximadamente 1,2 tonelada por hectare. Sendo assim, a floresta Amazônica pode ao invés de ser um sumidouro, ser uma fonte de CO2 para atmosfera.

O reflexo das plantas nos ambientes aquáticos é a matéria orgânica
liberada por elas (que poético, não?)


Mas por que esses ambientes aquáticos liberam CO2 para atmosfera? Basicamente, a matéria orgânica proveniente da vegetação da floresta (folhas, galhos, resto de animais, carbono orgânico dissolvido lixiviado, e outros) se acumulam nestes ambientes, pois a rede de rios é bastante densa dentro de toda a floresta. Além disso, através de ciclo de cheia e seca, a água avança sobre o ambiente terrestre captando ainda mais matéria orgânica. Deste modo, esta matéria orgânica serve como substrato para ação decompositora (o carbono orgânico dissolvido, basicamente, para as bactérias e o particulado para ouros organismos maiores). E como a produção primária nos rios é bastante pequena, o balanço geral fica negativo, isto é, os rios emitem CO2 para atmosfera. Em uma analogia, o rio funciona como se fosse um organismo heterotrófico, se o balanço fosse positivo, o rio funcionaria como um vegetal (absorveria CO2 da atmosfera).

Duvido que passe na cabeça de alguém de achar que a solução é acabar com a Amazônia. Esta floresta tem papel importantíssimo na regulação do clima de outras regiões do Brasil. Além de todo o potencial biotecnológico, aliás, se os grandes agricultores entendessem a riqueza deste potencial, parariam de destruir e lucrariam mais com a floresta em pé. Exportar soja e carne a toneladas, com certeza é menos lucrativo do que descobrir um composto ativo para a indústria farmacêutica. Mas isso é assunto para outros posts.

Fonte: Pesquisa Fapesp on line

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

1 tonelada de carbono por 15 dólares?


Este é o preço que as empresas da UE (União Européia) estão pagando agora em janeiro por cada tonelada de carbono extra emitida acima do teto de seu país de origem. A UE é de longe a maior bolsa de créditos de carbono do mundo, tendo negociado 5 bilhões de toneladas de carbono no último ano. Este preço por tonelada é o mais baixo da história e reflete de forma direta a baixa do preço de petróleo e gás no mercado internacional.



Preço por tonelada de carbono de CO2 equivalente (linha vermelha) e preço por barril de petróleo (linha azul). Fonte: Nature


Esta queda abrupta dos preços das chamadas "permissões" de emissão de gases de efeito estufa (do inglês, carbon allowance) deve-se a uma das regras fundamentais do mercado financeiro: diminuição da demanda gera diminuição do preço. Com a queda do preço do petróleo e gás no mercado internacional, as empresas que tem grande demanda de energia passaram a trocar a queima de carvão (muito importante na matriz energética européia) pela queima de gás natural, reduzindo a demanda por "permissões" de emissão.

Sendo assim, como todo mercado financeiro, abrimos uma brecha. Se você tem uma indústria de grande porte na Europa e não tem problema nenhum em usar uma tecnologia mais poluidora, a hora é essa! Aumente sua produção e compre "permissões" de emissão a preço de banana!

Hoje em dia os ambientalistas a grande mídia nos doutrina a diminuir nossa "pegada ecológica". Temos que ser vegetarianos devido a emissão de metano por vacas, viajar menos de avião pois eles são vilões do clima, usar lâmpadas mais eficientes, etc. Tudo em busca de alguns quilos de carbono a menos. Enquanto as grandes empresas emitem 1 tonelada a mais de carbono por 15 dólares. Não quero dizer que todos devemos consumir mais e não pensar sobre a contribuição pessoal de cada um. Mas devemos sim atacar os pilares do problema, de maneira mais efetiva e rápida.

Para entender melhor como funciona o mercado de carbono e as regras da compra e venda de crédito de carbono, clique aqui.
Para ler outros posts sobre aquecimento global, clique aqui.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Lenhadores da árvore da vida


Capa mais do que sensacionalista do tipo "Mordemos na capa e assopramos no artigo"



O título deste post é como a revista de divulgação científica americana NewScientist chamou os cientistas que trabalham com biologia evolutiva atualmente. Pela capa acima, nós esperamos um artigo revolucionário mostrando novos estudos que podem apresentar um novo caminho na teoria da evolução, novos mecanismos, novas ideias....bem, a esperança acaba por aí. Além de dar muito pano para a manga de criacionistas e os chamados "pós-darwinistas" (nunca entendi essa expressão), o artigo da NewScientist não trás nada denovo de novo.

Antes de começar a falar, ainda no editorial, a revista começa a pegar leve. Fala que a teoria darwiniana foi sim uma revolução, mas que eles esperam por outra revolução nos próximos anos, que ainda vamos comemorar o aniversário de 300 anos de Darwin, que nada que os estudos novos tragam vai diminuir o trabalho original, etc, etc. Além disso, ainda ressaltam que nada do que for trazido pela reportagem deve dar apoio aos criacionistas. Até parece que depois de uma capa dessa eles precisam falar alguma coisa. Já viraram hit nos sítios do ID. Na reportagem principal em si eles fazem apenas uma recapitulação de tudo que já vem sendo falado desde a década de 70 por Carl Woese.

A árvore desenhada por Charles Darwin em seu caderno de anotações B é um de seus principais pilares para a teoria da evolução. Esta árvore teria como base um ancestral comum, de onde toda a vida que existiu ou ainda existe no planeta teria derivado.



Árvore desenhada por Darwin. O número 1 seria o ancestral comum.


Já em 1998, mais de dez anos atrás, Woese publicou um artigo na PNAS em que ele defendia a ausência de um ancestral comum. Mas, como o seu artigo da década de 70 sobre os domínios da vida, ninguém deu muita bola. Porque ele defendia isso? Por causa da famigerada transferência horizontal, ora! Se os microorganismos trocam promiscuamente genes sem esses serem submetidos ao processo de seleção natural, não há motivo para termos um único ancestral comum. Então a árvore da vida estaria muito mais para uma "teia da vida" do que para uma árvore. Será que isso lembra alguma coisa? Antigamente usava-se muito o termo "cadeia alimentar". Mas hoje sabemos que a cadeia (que da a idéia de algo unilateral) está muito mais para uma teia. Por isso o termo "teia alimentar".



Teia trófica de um pinheiro, com os seus herbívoros, parasitas e parasitóides. Imagina de uma floresta inteira. Fonte: Canadian Forest Service


O artigo da NewScientist faz grande parte do seu estardalhaço nos artigos que estão saindo em periódicos mostrando transferência horizontal em organismos multicelulares, que já foram citados aqui no blog. Mostram até exemplos mais bizarros, como o genoma de uma vaca que tem pedaços de DNA de uma espécie de cobra que poderiam ter sido transferidos horizontalmente há mais de 50 milhões de anos atrás. Mesmo com todos esses exemplos, eles ainda ressaltam que vários autores ainda divergem sobre o assunto, defendendo que grande parte da diversidade pode ainda ser explicada por seleção natural e que a transferência horizontal é importante, mas não acabaria com a evolução darwiniana.

Polêmica ou não, acho que a discussão veio para ficar. Discordo um pouco de como o assunto foi colocado pela NewScientist. Na verdade, lendo o artigo, vemos que a capa deles foi muito mais para vender revista do que a tradução do conteúdo em si. A frase "lenhadores da árvore da vida" foi muito infeliz, pois passa a ideia que a ciência é construída através da desconstrução de teorias e conceitos anteriores. O conceito de evolução de Darwin foi construído no ombro de gigantes como Erasmus Darwin, Lamarck e Wallace. Desta forma, ainda acho que falaremos muito deles nos próximos séculos.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Agora sim! É para chorar...

Diante de todas as discussões sobre pseudo-ciências e religião, acabo de ler em um jornal de grande circulação aqui no Rio de Janeiro uma notícia de deixar qualquer ser racional de boca aberta. Nosso novo e querido prefeito Eduardo Paes acaba de pedir socorro a FCCC para o combate as chuvas de verão. Então você me pergunta, o que é a FCCC? É a Fundação Cacique Cobra Coral! Por meio da médium Adelaide Scritori, o espírito do Cacique Cobra Coral é incorporado, sendo capaz de afastar (isso mesmo, AFASTAR) as chuvas de verão do Rio de Janeiro. Essa fundação já mantinha um convênio com a administração passada, porém desde o dia 31 de dezembro este convênio não foi renovado.

A FCCC diz não cobrar nenhuma verba da prefeitura do Rio de Janeiro para a formalização do contrato. Deste modo, o secretário de Obras e Serviços Públicos, Luiz Guaraná disse que se o convênio não tem custos para a prefeitura e tranquiliza a população, será renovado com muito prazer. Porém um diretor da fundação diz que além da parte mediunica (essa parte espiritual é de graça), a fundação conta com uma equipe de metereologistas que custa R$60.000 por convênio. Me pergunto, então da onde virá os R$60.000 mensais? (pense bem meu caro leitor) Nossa, essa é para pegar uma espingarda calibre 12, apontar para minha própria cabeça e disparar. A fundação diz que seu maior feito foi ter feito não chover durante uns poucos minutos durante a festa da queima de fogos no Reveillon carioca. Observação: isto porque choveu durante o dia inteiro.

A cada ano que passa, os temporais no Rio de Janeiro tem consequências mais desastrosas em nossa cidade. Barreiras desmoronam, crianças morrem soterradas, milhares de pessoas ficam desabrigadas, caos no trânsito e outros. Isto com a ajuda da eficiente fundação, tanto com a ajudas dos espíritos, como com a ajuda dos meteorologistas.

Agora me pergunto, por que uma fundação que diz controlar o tempo (como a Tempestade do X-men) precisa de uma equipe de meteorologistas? Se ela diz não cobrar a parte espiritual, por que não contratam somente os mediuns (não que isso seja uma coisa boa) e deixa a parte meteorológica com os especialistas que já existem?


Por que não chamamos ela? Marvel cadê você???


É para perder as esperanças. O prefeito que se diz católico, recorre ao espiritismo (ou seja lá qual for a religião que incorpora o Cacique Cobra Coral) para resolver problemas meteorológicos! (nunca entendi essas pessoas religiosas). Não é mais fácil dar um jeito na cidade? Modernizar o sistema de captação das águas pluviais, impedir que milhares de toneladas de lixo sejam jogadas nos nossos rios, que construções irregulares sejam feitas as margens desses mesmos rios ou em encostas com risco desmoronamento.

Bem, acho que vou fundar uma fundação espírita (essa parte de graça), mas com uma equipe de geólogos, engenheiros e biólogos especialistas em planejamento urbano. Essa fundação será especialista em controlar as mortes por soterramento e deslizamentos de terra em encostas. Os especialistas também são de graça, só cobramos o charuto (cubano) e a arruda por módicos R$50.000 mensais. É porque como as coisas aqui estão pretas, vai ser preciso muito charuto e arruda para dar jeito!

É isso que dá misturar religião e ciência (meteorologia). É uma irresponsabilidade e falta de discernimento a cogitação de tal convênio. Nossos governantes perdem tempo com coisas desse tipo, ao invés de pensarem em solução realmente concretas e factíveis. Perder tempo com isso, é gastar o meu dinheiro que pago em impostos em ações que não vão adiantar em nada. Pessoas continuam morrendo, casas continuam a ser destruídas e o trânsito continua um caos.


UPDATE - 25/01/09


Consegui achar o link para um resumo da reportagem. Vejam com os seus próprios olhos no sítio do jornal O Globo.

Para conhecer um pouco mais da fundação, olhem só o que tirei do sítio deles, da parte de "Quem somos":

A Fundação Cacique Cobra Coral foi criada para intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza. Fundada por Ângelo Scritori e tendo a frente sua filha Adelaide Scritori também médium que incorpora o espírito e mentor Cacique Cobra Coral que também já teria sido de Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Ângelo Scritori, morreu aos 104 anos, no ano de 2002.

Adelaide Scritori nasceu acompanhada de uma profecia.

História

Uma certa noite ao norte do Paraná, geava fortemente sobre o sítio da família, momento em que sua mãe entrou em trabalho de parto. Tão forte a geada que toda a plantação de café da pequena propriedade foi perdida. Ângelo Scritori afirma que naquela noite a profecia havia acontecido, o espírito do Padre Cícero (1844-1934) se manifestou, como costumava acontecer, por meio dele. Avisou, daquela feita, que a mais nova integrante da família teria poderes para se comunicar com outro espírito, um ente poderoso o suficiente para alterar fenômenos naturais.

Sete anos depois, já menina, Adelaide lembra ter recebido pela primeira vez, no centro espírita freqüentado pelos Scritori, as mensagens enviadas pelo Cacique Cobra Coral. Espírito que já teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Anos depois Ângelo Scritori criou a Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) que logo passou a ter Adelaide Scritori à frente da Fundação. Com o passar dos anos os feitos tomaram tamanha proporção que a Fundação ganhou seguidores e colaboradores pelo mundo inteiro.

Nossa missão: Minimizar catástrofes que podem ocorrer em razão dos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza.

Fundação Cacique Cobra Coral


Tirando a parte exotérica, eles são um grupo de confiança. Não sei porque gastamos milhões de reais com o CEPETEC/INPE para fazer previsões do tempo. Seria muito mais proveitoso fazer como a FCCC. Seus "dados" meteorológicos veem da "Tunikito corporation" (sic). "Um conglomerado de empresas que há mais de 20 anos tem se dedicado ao setor de seguros de automóveis, consultoria, administração e participação, representação comercial, locação de veículos importados e meteorologia em todo o mundo". Isso que eu chamo de foco em um tipo de negócio!

Parece uma piada de mau gosto, mas não é. Eles parecem ter convênio com várias prefeituras de todo o Brasil, como mostrado na parte de "convênios" do seu sítio. Dentre elas cidades pequenas como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Dia Darwin no Rio de Janeiro

Em pleno ano Darwin começam (lentamente) as comemorações em terras tropicais. Dia 12 de fevereiro (dia em que Darwin faria 200 anos) serão realizadas palestras por professores e pesquisadores da UERJ e de outras universidades do Rio de Janeiro sobre a vida e obra de Charles Darwin, evolução e psicologia evolutiva. O evento é gratuito e está previsto para ocorrer das 16:00 às 19:00 no 11º Andar, Bloco F, da UERJ. As palestras já confirmadas são listadas abaixo. Para mais informações e inscrições no evento (as vagas são limitadas): dia.darwin.brasil@gmail.com

  • "O Homem Charles Darwin", com Ricardo Campos da Paz, biólogo e professor da Unirio
  • "Efeitos Astronômicos sobre a Evolução Biológica", com Hélio Jaques Rocha Pinto, astrônomo e professor do Observatório do Valongo/UFRJ
  • "Biologia Evolutiva", com Robson Vera Cruz de Carvalho, biólogo, mestre em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ
  • "Psicologia Evolucionista – Fundamentos e Desenvolvimentos Contemporâneos", com Aline Melo de Aguiar e Rafael Vera Cruz de Carvalho, ambos psicólogos e mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Uerj

Este evento faz parte da celebração mundial do Dia Darwin que é realizado todo ano no dia 12 de fevereiro, mas que este ano, com certeza, terá maior visibilidade devido aos 200 anos de nascimento de Charles Darwin e os 150 anos de publicação do "A Origem das Espécies". Para ver a descrição do evento no sítio do "Darwin Day", clique aqui.

Fonte: Jornal da Ciência e Agência FAPESP

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Evolução em microescala, o que Darwin não viu.


No ano em que o nascimento de Darwin faz 200 anos, recomecei a tentar ler o famoso "A Origem das Espécies". Recomecei, pois já tentei ler ele umas 3 vezes. Me lembro que comprei esse livro antes de entrar na graduação em Ciências Biológicas em 2002. Acho que não estava preparado, e como um grande número de pessoas, lia muito sobre a obra, mas nunca tinha realmente "bebido na fonte". Desta vez me vejo mais maduro e com mais experiência para ler o livro. E o mais importante, com mais disposição para terminar.

Entretanto, o tema deste post não é sobre minhas nada emocionantes tentativas de ler "A Origem das Espécies". Este post diz respeito a evolução, mas não na escala de tempo em que Darwin estava acustumado a trabalhar. Ainda em vida (1878), por pouco, Darwin quase foi testemunha do processo de evolução em curta escala de tempo. Um cientista amador, o reverendo William Dallinger, fez experimentos com cultura de "micróbios" em frascos com elevada temperatura (maior que 65 graus celsius). William tentava selecionar alguns micróbios que conseguiam resistir a essas temperaturas e criar uma cultura deles. Porém, o experimento foi interrompido quando o grande frasco no qual eram realizados os experimentos quebrou.

Em 1988, Richard Lenski reviveu este experimento, mas usando E. coli e controlando a disponibilidade de recurso (comida mesmo, mais precisamente glicose). E em um único dia, com poucos indivíduos, você pode obter milhares. O tempo de vida desta bactéria é muito curto, alguns poucos minutos. É claro que de um dia para outro não vamos encontrar diferenças, mas o cultivo contínuo em meio de cultura durante anos, pode gerar bilhões de gerações de E. coli. E aí que está o grande sacada. O gigantesco número de gerações aumenta enormemente a chance de mutações aleatórias. É como ocorreu, por exemplo, desde o ancestral em comum do homo sapiens e os gorilas (o que aconteceu por volta de 7 milhões de anos atrás), só que dentro de frascos e numa escala de tempo de anos.

Inicialmente, Lenski separou 12 linhagens e utilizou o mesmo tratamento para todas (ciclos de saciedade e fome). Sendo que toda semana, amostras são separadas e congeladas para servirem como um inventário. Isto é, seria como se congelassem parte de nossos ancestrais de gerações em gerações. E o porquê disso é simples: a possibilidade de rastrear as mutações aleatórias que foram os primórdios de uma característica nova. Comparando as novas gerações com as gerações mais antigas (45.ooo gerações de distância), as mais novas crescem 75% mais rápido e são duas vezes maiores . Porém as causas ainda não foram descobertas pelo grupo de cientistas.


Placas de petri com meio de cultura para o crescimento da E. coli


Estas diferenças já são muito marcantes e merecem muitos estudos para melhor explicá-las. Porém o mais surpreendente ainda está por vir. Uma das doze linhagens sofreu alguma mutação por volta da geração 31.000 que surpreendeu Lenski. Em meios em que o suprimento de alimento já tinha acabado, foi observado um grande crescimento bacteriano (ao invés de ficar translúcido, o meio apresentavam certa turbidez). Essa linhagem aprimorou ao longo de 14.000 gerações (45.000 - 31.000 = 14.000) a capacidade de se alimentar de citrato. Isto é muito interessante, pois a E. coli não é "normalmente" capaz de incorporar esta molécula. Mas o que trouxe de benefício esse novo comportamento? Essas bactérias precisam de pequenas quantidades de ferro para sobreviver, mas não são capazes de absorver átomos livre de ferro. E imaginem o que tem ligado ao citrato? Isso mesmo! Ferro. Desse modo, mesmo depois que a glicose do meio acabava, essa linhagem ainda era capaz de crescer devido a incorporação do citrato presente no mesmo meio.

O trabalho de Lenski agora é tentar observar quais foram as mutações inciais que permitiram que essa linhagem pudesse se alimentar, mesmo que pouco eficientemente, de citrato, mas que ao longo do tempo (14.000 gerações) foi aperfeiçoada. Esta característica possibilitou que essa linhagem (e somente esta, o que é o mais interessante) ter duas fontes de energia. Ao final desta etapa, Lenski vai poder dizer se uma nova espécie foi formada. Isso mesmo que vocês estão pensando! Evolução em alguns poucos anos! Imaginem o que Darwin diria!

Recomendo a leitura completa de um especial sobre os 200 anos do nascimento de Darwin aqui, onde essa história sobre E. Coli é contada por Carl Zimmer.